Diário Bíblica Portugués

14 de Setembro de 2022

Primeira leitura: Nm 21,4b-9: 
Aquele que for mordido e olhar para ela viverá.
Salmo: Sl 77(78),1-2.34-35.36-37.38 (R. cf. 7c): 
Das obras do Senhor, ó meu povo, não te esqueças!
Evangelio: Jo 3,13-17: 
É necessário que o Filho do Homem seja levantado.

Tema: EXALTAÇÃO DA SANTA CRUZ (Festa)

Naquele tempo, disse Jesus a Nicodemos: "Ninguém subiu ao céu, a não ser aquele que desceu do céu, o Filho do Homem. Do mesmo modo como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que o Filho do Homem seja levantado, para que todos os que nele crerem tenham a vida eterna. Pois Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna. De fato, Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele".

 

Comentário 

- Estamos na "festa" (litúrgica) da "Exaltação" da Santa Cruz. É sobre esse signo que identifica o cristianismo em todo o mundo, como a lua crescente identifica o islamismo ou a estrela de seis pontas formada por dois triângulos equiláteros sobrepostos inversamente –a estrela de Davi– é o emblema do judaísmo. Dentro de uma mentalidade mágica, a cruz teve quase tanto valor na história quanto o Cristo que foi crucificado nela. "O sinal da cruz" assustou o diabo, removeu maldições, "atravessou" todos os devotos, foi traçado milhões de vezes no ar, derramando bênçãos benevolentes.

- Na religiosidade popular, Cristo foi sobretudo o sofredor, o condenado, açoitado, crucificado, homem de dores, morto em sofrimentos insuportáveis. A cruz tem sido o sinal da dor, tanto de Cristo como do universo. Para os cristãos, o sofrimento de Cristo tem uma referência universal.

- A inevitável dimensão dolorosa da cruz significa que a sua "exaltação" não é isenta de problemas. Alguns agentes pastorais muitas vezes tentam ignorá-los simplesmente olhando para o outro lado, mantendo-se calados ou falando sobre outra coisa. Mas esse método evasivo não é o melhor serviço que pode ser feito ao povo cristão. Acreditamos que é melhor enfrentar os problemas de frente e dar-lhes um nome e novos limites. É isso que vamos tentar fazer.

- O primeiro grande perigo é essa mesma "exaltação" da cruz, pelo que ela pode ter de exaltação do sofrimento pelo sofrimento, como se tivesse um valor cristão por si só. Boa parte do povo cristão ainda conserva a imagem de um Deus doloroso e amante do sofrimento, que parece se alegrar quando vê o sofrimento, ou que apenas concede sua graça ou benevolência aos seres humanos em troca do sofrimento. Muitas promessas, "mandas", de religiosidade popular são feitas nesse esquema: eu me sacrifico, ofereço a Deus um dano que faço a mim mesmo, como "um adiantamento para ele, em troca do favor solicitado"... Isso Deus diante de quem o que vale e o que lhe agrada é o sofrimento, ele não é um Deus cristão; a exaltação de uma cruz que inclui – consciente ou inconscientemente – tal imagem de Deus, não seria uma exaltação cristã.

- Essa teologia, que ainda existe, é um problema muito sério, segundo a qual Deus enviou seu Filho ao mundo para sofrer, para sofrer horrivelmente (veja o texto proposto por Bernard SESBOÜÉ abaixo), porque esse Filho seria assim o único capaz de oferecer reparação infinita à dignidade de Deus Pai ofendido pelo ser humano em um "pecado original" (que historicamente não ocorreu)...

- Sem verdadeiro fundamento no evangelho, esta teologia surgiu com a passagem dos primeiros séculos, e foi Santo Anselmo de Cantuária (século XI) quem lhe deu a reconfiguração definitiva com que chegou até nós, nos nossos catecismos infantis. É a visão clássica da “redenção”, a morte de Jesus na cruz redentora, que “paga” o Pai com o seu sofrimento, para que aceite restabelecer a boa ordem das suas relações com a Humanidade. Intimamente ligada a esta teologia está a ideia do “sacrifício” de Cristo na Cruz. Uma teologia que, por um lado, mostra hoje uma imagem de Deus inaceitável. Por outro lado, é uma teologia que ainda aparece – inexplicavelmente – em documentos oficiais... Celebrar a Exaltação da Santa Cruz sem abordar esses problemas pode ser mais confortável, mas não mais sincero ou mais proveitoso ou pedagógico.

- A cruz de Cristo não deve ser usada como símbolo de tudo o que em nossa vida humana existe uma limitação estrutural, de finitude natural. Esta é uma dimensão natural da nossa vida humana ("as cruzes da vida"), e a cruz de Cristo não é "natural", mas "histórica". Na cruz de Cristo - se não quisermos cair em mistificações - não entram suas dificuldades e limitações humanas, nem as nossas: doenças, limitações, acidentes ou azar. Essa não é a cruz de Cristo, mas avatares e peculiaridades da vida humana, que se deve saber carregar e suportar com graça e boa vontade.

- A cruz de Cristo não foi um "desígnio de Deus", mas um desígnio humano, estritamente humano. Jesus, por seu lado, também não buscou a cruz: “Afasta de mim este cálice”, e a cruz nunca deve ser buscada, por si só, pelos seus discípulos. Aquele “Ave Crux, Spes única!” ("Salve, Cruz, única Esperança!") do ditado clássico, deve ser tomado com muitas "cautelas" na forma de entendê-lo. Nem Deus nem Cristo "amam a Cruz", nem devemos "amá-la", mas, ao contrário, devemos "combatê-la". A tarefa do cristão, como a de Jesus, é precisamente combater a cruz, libertar os seres humanos do sofrimento. Claro que lutar contra a cruz aumenta a animosidade daqueles que se interessam egoisticamente pelos mecanismos de opressão, pessoas e estruturas que impõem uma cruz àqueles que lutam para libertar os seres humanos de todas as cruzes. Outro ditado mais moderno e mais correto diz: "Procure a Verdade, eles vão colocar a Cruz em você". Não devemos procurar a cruz, embora não devamos retroceder um milímetro na Verdade e na luta pela Justiça, por causa do medo da cruz que nos será imposta...

- Em suma, o que devemos exaltar não é a cruz, mas a coragem de Jesus, que optou pelo Reino e pelo amor, sem medo da cruz que ele previu e tinha certeza que lhe seria imposta. A exaltação da fidelidade de Jesus à Causa do Reino é o verdadeiro conteúdo desta festa.

- Algumas pessoas se assustam quando essas releituras críticas são feitas. Parece-lhes uma atitude negativista... Preferem que só se fale do positivo, e que o resto seja ignorado, como que vencido pelo esquecimento... Não partilhamos dessa opinião. Estamos em um momento de transição teológica, uma transição que é lenta justamente por causa dessa falta de senso crítico na teologia e na homilética. Se os pregadores (e grupos de formação cristã) assumissem como tarefa habitual fazer a "digestão crítica" de todo o pensamento antigo que ainda pesa sobre o cristianismo, sem dúvida estaríamos em melhores condições para dialogar com o mundo de hoje. Por outro lado, qualquer renovação do pensamento e da vida necessita de um momento de "desconstrução", sem o qual, muitas vezes, não é possível uma verdadeira renovação (reconstrução).

Oração
Ó Deus, nosso Pai, concede-nos o dom de saber encontrar no presente da nossa história, o sentido profundo da nossa missão cristã, para que nos comprometamos com tudo o que implica ser fiel ao teu projeto na sociedade em que vivemos e construir teu Reino. Por Jesus Cristo nosso Senhor.

Santo do Dia
Exaltação da Santa Cruz

Esta festa remonta ao ano 335, quando S. Helena, mãe de Constantino I, em peregrinação pelos Lugares Santos, descobriu o madeiro em que Jesus teria sido crucificado. A Santa Cruz foi então exaltada com grande júbilo diante do povo cristão. Em agradecimento a Deus, foram construídas duas basílicas, uma no Gólgota e outra no lugar onde Jesus fora sepultado. S. André de Creta (séc. VIII) afirma:
Celebramos a festa da cruz; por ela as trevas são repelidas e volta a luz... junto com o Crucificado somos levados para o alto para que, abandonando a terra com o pecado, obtenhamos os céus (cf. Liturgia das horas, p. 1269s, v. IV).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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