Consulta diaria


Primeira leitura: At 2,1-11: 
Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar.
Salmo: Sl 103,1ab.24ac.29bc-30 31.34 (R.30):   
Enviai o vosso Espírito, Senhor, e da terra toda a face renovai.
Segunda leitura: 1Cor 12,3b-7.12-13:                 
Fomos batizados num único Espírito para formarmos um único corpo.             
Evangelio:
Jo 20,19-23: 
Assim como o Pai me enviou também eu vos envio: Recebei o Espírito Santo!

 

 

Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, Jesus entrou e pondo-se no meio deles, disse: 'A paz esteja convosco'. Depois destas palavras, mostrou-lhes as mãos e o lado. Então os discípulos se alegraram por verem o Senhor. Novamente, Jesus disse: 'A paz esteja convosco. Como o Pai me enviou, também eu vos envio'. E depois de ter dito isto, soprou sobre eles e disse: 'Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem os não perdoardes, eles lhes serão retidos'.

Comentário

Nota introdutória: Como quase todas, Pentecostes não é uma festa originalmente cristã (proposta por Jesus) nem mesmo israelita (decidida por Israel), mas uma celebração que faz parte de uma cultura religiosa que está sempre evoluindo, e se acomoda e se enriquece com o transcurso do tempo e a sucessão das diversas vivências do povo. Como "Festa das Semanas" ou "da Cinquentena", em Israel foi uma festa claramente agrária, que celebrava o início da colheita. Era celebrada por sete semanas (cinquenta dias) a partir da Páscoa, para dar graças a Deus pela nova colheita (cf. Ex 23,16; 34,22; Lv 23,15-21; Dt 16,9-12). No judaísmo tardio, tornou-se uma festa plenamente religiosa: passou a ser memória do dom da Lei no Sinai para o povo libertado do Egito.

O Espírito é a própria vida de Deus. Na Bíblia, é sinônimo de vitalidade, dinamismo e novidade. O Espírito animou a missão de Jesus e está também na raiz da missão da Igreja. O evento de Pentecostes nos leva de volta ao coração da experiência cristã e eclesial: uma nova experiência de vida com dimensões universais.

A primeira leitura (At 2, 1-11) é o relato do evento de Pentecostes. Narra o cumprimento da promessa feita por Jesus no final do Evangelho de Lucas e no início do livro dos Atos dos Apóstolos (Lc 24,49: “Eu vos mandarei o Prometido de meu Pai... permanecei na cidade, até que sejais revestidos da força do alto”. At 1, 5.8: "Vós sereis batizados no Espírito Santo daqui a poucos dias... descerá sobre vós o Espírito Santo e vos dará força”).

Com esta narrativa, Lucas aprofunda um aspecto fundamental do mistério pascal: Jesus ressuscitado enviou o Espírito Santo à comunidade nascente, capacitando-a para uma missão de horizonte universal. O relato começa com algumas indicações relativas ao tempo, ao lugar e às pessoas envolvidas no evento. Tudo acontece "quando chega o dia de Pentecostes" (At 2.1). Pentecostes é uma festa judaica conhecida como "festa das semanas" (Ex 34,22, Nm 28,26, Dt 16,10,16, etc.) ou "festa da colheita" (Ex 23,16; Nm 28,26; etc.), que se celebrava sete semanas após a Páscoa.

Parece que em alguns ambientes judaicos na época tardia, nesta festa se celebravam as grandes alianças de Deus com seu povo, particularmente a do Sinai, que estava diretamente relacionada ao dom da Lei. Embora Lucas não desenvolva esta temática no relato de Pentecostes, certamente ele conhecia esta tradição e é provável que quisesse associar o dom do Espírito, enviado por Cristo ressuscitado, ao dom da Lei recebida no Sinai. Na comunidade de Qumran, contemporânea de Jesus, o Pentecostes havia chegado a ser a Festa da Nova Aliança que assegurava a efusão do Espírito de Deus ao novo povo purificado (Jr 31,31-34, Ez 36).

O texto dos Atos dos Apóstolos dá outra indicação: "estavam todos juntos num mesmo lugar" (At 2,1). Com estas palavras, queremos sugerir que os presentes estavam unidos, não apenas no mesmo lugar, mas com o coração. Embora não se fale de uma reunião de culto, não seria estranho que Lucas imaginasse os crentes em oração, esperando pela vinda do Espírito, da mesma forma que Jesus estava orando quando o Espírito desceu sobre ele no batismo (Lc 3,21: "Enquanto Jesus orava... o Espírito Santo desceu sobre ele", Atos 1,14: "Todos eles perseveravam unanimemente na oração, juntamente com as mulheres, entre elas Maria, mãe de Jesus, e os seus irmãos").

Lucas utiliza em primeiro lugar o símbolo do vento para falar do dom do Espírito: "De repente, veio do céu um ruído, como se soprasse um vento impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam sentados" (At 2,2). Embora os discípulos estivessem esperando o cumprimento da promessa do Senhor ressuscitado, o evento ocorre "de repente" e, portanto, imprevisivelmente. É uma forma de dizer que se trata de uma manifestação divina, já que o agir de Deus não pode ser calculado ou previsto pelo ser humano. O ruído vem "do céu", isto é, do lugar da transcendência, de Deus. Sua origem é divina. E é como o rumor de uma rajada de vento impetuoso.

O evangelista queria descrever a descida do Espírito Santo como poder, como força e dinamismo e, portanto, o vento era um elemento cósmico adequado para expressá-lo. Além disso, tanto em hebraico quanto em grego, espírito e vento são expressos com a mesma palavra (hebraico: ruah; grego: pneuma). Não é estranho, portanto, que o vento seja um dos símbolos bíblicos do Espírito. Recordemos o gesto de Jesus no evangelho, quando ele "sopra" sobre os discípulos e diz: "Recebam o Espírito Santo" (Jo 20,22), ou a visão dos esqueletos ressecados narrada em Ez 37, onde o vento-espírito de Deus faz com que aqueles ossos sejam revestidos de tendões e carne, recriando o novo povo de Deus.

"Então apareceram línguas como de fogo, dividindo-se e pousando sobre cada um deles" (At 2,3). Lucas se serve logo de outro elemento cósmico que era frequentemente utilizado para descrever as manifestações divinas no Antigo Testamento: o fogo, que é um símbolo de Deus como força irresistível e transcendente. A Bíblia fala de Deus como “fogo devorador” (Dt 4,24; Is 30,27; 33,14); "uma fogueira perpétua" (Is 33,14). Tudo o que entra em contato com ele, como acontece com o fogo, fica transformado. O fogo é também expressão do mistério da transcendência divina. Com efeito, o ser humano não pode reter o fogo em suas mãos, ele sempre escapa; e, no entanto, o fogo o envolve com sua luz e o conforta com seu calor. Assim é o Espírito: poderoso, irresistível, transcendente.

O evento extraordinário expresso simbolicamente nos vv. 2-3 se explicita no v.4: "Todos ficaram cheios do Espírito Santo". O próprio Deus enche todos os presentes com o seu poder. Eles não recebem uma ajuda qualquer, mas a plenitude do poder divino que se identifica na Bíblia com essa realidade chamada: o Espírito. É um evento único que marca a chegada dos tempos messiânicos e que permanecerá para sempre no coração da Igreja. A partir deste momento, o Espírito será uma presença dinâmica e visível na vida e missão da comunidade cristã.

A força interior e transformadora do Espírito, descrita anteriormente com os símbolos do vento e do fogo, torna-se agora capacidade de comunicação que inaugura a eliminação da divisão antiga entre os seres humanos devido à confusão das línguas em Babel (Gn 11). "E começaram a falar em línguas estranhas, como o Espírito Santo lhes concedia que se expressassem" (v.4). Em Jerusalém, não na casa onde estão os discípulos, não no espaço fechado de poucos escolhidos, mas no espaço aberto onde há pessoas de todas as nações (v. 5), na praça e na rua, o Espírito reconstrói a unidade de toda a humanidade e inaugura a missão universal da Igreja.

O pecado condenado no relato da Torre de Babel é a preocupação egoísta dos seres humanos que se fecham e não aceitam a existência de outros grupos e outras sociedades, mas desejam permanecer unidos em torno de uma grande cidade cuja torre toca o céu. O Espírito deve vir continuamente para perdoar e renovar os seres humanos para que não se repitam as tragédias causadas pelo racismo, pelo fechamento étnico e pelos integrismos religiosos.

O Espírito de Pentecostes inaugura uma nova experiência religiosa na história da humanidade: a missão universal da Igreja. A palavra de Deus, graças ao poder do Espírito, será pronunciada repetidamente ao longo da história em diferentes línguas e será encarnada em todas as culturas. No dia de Pentecostes, pessoas vindas de todas as partes da terra "ouviram falar em sua própria língua" (At 2,6.8). O dom do Espírito que a Igreja recebe, no início de sua missão, a capacita para falar de forma inteligível a todos os povos da terra.

No Evangelho, a aparição do Senhor ressuscitado aos discípulos é narrada no dia da Páscoa. Todo o relato é determinado por uma indicação temporal (é o primeiro dia da semana) e por uma indicação espacial (as portas do lugar onde estão os discípulos estão fechadas).

A referência ao primeiro dia da semana, ou seja, o dia depois do sábado (domingo) evoca as celebrações dominicais da comunidade primitiva e a nossa própria experiência pascal que se renova a cada domingo. A indicação das portas fechadas quer recordar o medo dos discípulos que ainda não creem, e ao mesmo tempo quer ser um testemunho da nova condição corporal de Jesus que se fará presente no local. Jesus passará por ambas as barreiras: as portas externas fechadas e o medo interior dos discípulos. Apesar de tudo, estão juntos, reunidos, o que parece ser na narração uma condição necessária para o encontro com o Ressuscitado; de fato, Tomé só pode chegar à fé quando está com o resto do grupo.

Jesus "apareceu no meio deles" (v.19). O texto fala da "ressurreição" como vinda do Senhor. Cristo ressuscitado não vai embora, mas vem de um modo novo e pleno para os seus (Jo 14,28: "Eu vou e volto a vós"; Jo 16,16-17) e lhes comunica quatro dons fundamentais: a paz a alegria, a missão e o Espírito Santo.

Os dons pascais por excelência são a paz (o shalom bíblico) e a alegria (a járis bíblica), que não são dados para o gozo egoísta e exclusivo, mas para serem traduzidos em missão universal. A missão que o Filho recebeu do Pai agora se torna missão da Igreja: o perdão dos pecados e a destruição das forças do mal que oprimem o ser humano. Para isso, Jesus dá o Espírito aos discípulos. No texto, de fato, o tema da nova criação se destaca: Jesus "soprou sobre eles", como Javé, quando criou o ser humano em Gn 2,7 ou como Ezequiel, que invoca o sopro da vida sobre os ossos ressequidos (Ez 37).

Com o dom do Espírito, o Senhor Ressuscitado inicia um novo mundo, e com o envio dos discípulos é inaugurado um novo Israel que acredita em Cristo e testemunha a verdade da ressurreição. Como "seres humanos novos", cheios do sopro do Espírito em virtude da ressurreição de Jesus, eles devem continuar a missão do "Cordeiro que tira o pecado do mundo": a missão da Igreja que continua a obra de Cristo realiza a renovação da humanidade como numa nova obra criadora em virtude do poder vivificante do Ressuscitado.

Oração

Senhor Deus, nosso Pai, que renovastes o mundo através do caminho pascal do vosso Filho e com o envio do Espírito Santo sobre os discípulos. Tornai-nos abertos à ação do Espírito e dóceis aos seus caminhos, anunciando com nossa vida o evangelho do Reino para todos os povos comprometendo-nos a construir um mundo novo onde reinem a justiça e a paz. Por Cristo nosso Senhor. Amém.

Santo do Dia
São José de Anchieta
1534-1597 ? \"José? quer dizer \"que Deus acrescente? ? \"Anchieta?
quer dizer \"pantanais?
Nasceu em Tenerife, Ilhas Canárias, e chegou ao Brasil em 1553. É um dos co-fundadores da cidade de São Paulo (25/1/1554). Apóstolo do Brasil, percorreu o país inteiro, evangelizando, fundando obras sociais e religiosas, escrevendo e promovendo a paz. É invocado com a seguinte oração:

Bem-aventurado José de Anchieta, Apóstolo do Brasil, abençoai nossa pátria e a cada um de nós. Inflamado pela glória de Deus, consumistes a vida na promoção dos índios, catequizando, instruindo, fazendo o bem. Que o legado de vosso exemplo suscite novos apóstolos e missionários em nossa terra. Professor e mestre, abençoai os jovens, crianças e educadores. Poeta e literato, inspirai os escritores, artistas e comunicadores. Consolador dos doentes e aflitos, protetor dos pobres e abandonados, velai pelos que mais necessitam e sofrem em nossa sociedade, nem sempre justa, fraterna e cristã. Santificai as famílias e comunidades, orientando os que regem os destinos do Brasil e do mundo. Por Maria Santíssima, a quem tanto venerastes na terra, iluminai nossos caminhos hoje e sempre. Amém.