Consulta diaria


Primeira leitura: Gn 15,5-12 17-18: 
Deus fez Aliança com Abraão homem de fé.
Salmo: Sl 26,1.7-8.9abc.13.14 (R. 1a): 
O Senhor é minha luz e salvação.
Segunda leitura: Fl 3,17-4,1: 
Cristo transformará o nosso corpo e o tornará semelhante ao seu corpo glorioso.
Evangelio: Lc 9,28b-36: 
Enquanto Jesus rezava, seu rosto mudou de aparência.

 

 

Naquele tempo: Jesus levou consigo Pedro, João e Tiago, e subiu à montanha para rezar. Enquanto rezava, seu rosto mudou de aparência e sua roupa ficou muito branca e brilhante. Eis que dois homens estavam conversando com Jesus: eram Moisés e Elias. Eles apareceram revestidos de glória e conversavam sobre a morte, que Jesus iria sofrer em Jerusalém. Pedro e os companheiros estavam com muito sono. Ao despertarem, viram a glória de Jesus e os dois homens que estavam com ele. E quando estes homens se iam afastando, Pedro disse a Jesus: 'Mestre, é bom estarmos aqui. Vamos fazer três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias.' Pedro não sabia o que estava dizendo. Ele estava ainda falando, quando apareceu uma nuvem que os cobriu com sua sombra. Os discípulos ficaram com medo ao entrarem dentro da nuvem. Da nuvem, porém, saiu uma voz que dizia: 'Este é o meu Filho, o Escolhido. Escutai o que ele diz!' Enquanto a voz ressoava, Jesus encontrou-se sozinho. Os discípulos ficaram calados e naqueles dias não contaram a ninguém nada do que tinham visto.

Comentário

Análise
O texto de Gn 15 pertence a uma unidade que tem duas partes bem destacadas: a primeira vv.1-6 sobre a promessa de um filho e descendência, a segunda vv.7-21 sobre a promessa da terra. O texto que a liturgia apresenta hoje deixa ver uma certa confusão já que encontramos a conclusão da primeira parte, e parte da segunda. Muitos estudiosos se perguntaram pela antiguidade do texto. Hoje parece haver consenso que, mesmo havendo muito material antigo, temos também elementos tardios (como, por exemplo, semelhanças com o Segundo Isaías). Inclusive os primeiros defensores da teoria de fontes do Pentatêuco afirmavam que descobrir as fontes deste texto era muito difícil, e até impossível.

A primeira parte (vv.1-6) nos mostra a promessa de Deus (v.1), a objeção de Abraão, (vv.2-3), a resposta de Deus em forma de sinal (vv.4-5: v.4, negação à objeção, v.5, sinal no céu) e aceitação de Abraão (v.6). Como podemos ver, a liturgia somente incorpora o sinal e a aceitação final. A cena é muito conhecida, por ser um dos momentos iniciais, primordiais, do Primeiro Testamento.

Já se sabe que nos domingos da Quaresma a liturgia escolhe «textos bíblicos fortes», referentes a elementos ou dimensões capitais da fé judaico-cristã. Este de hoje é claro: nada menos que a Aliança de Deus com Abraão, a Aliança que deu origem a tudo, porque a partir daí supostamente se começaria a formar o povo de Israel –da descendência de Abraão– e daí sairia Jesus, e daí o cristianismo, a Igreja, e todo o Ocidente Cristão... De fato, sem ir mais longe, a Doutrina do Destino Manifesto dos Estados Unidos da América considera este país como o «Novo Israel» para os tempos da modernidade democrática. Países, religiões –incluído o Islamismo– e culturas, creem trazer dentro de seu código genético cultural, o DNA de Abraão; todos eles se consideram, de alguma forma, eleitos por Deus, queridos por Ele, por meio deste Patriarca privilegiado que hoje estaria marcando e afetando a mais da metade da Humanidade (cristãos e muçulmanos já somos 54% da população atual).

Ao fato mesmo desta Aliança de Javé com Abraão apelam alguns partidos políticos no Parlamento (Knéset) do Estado Israelita para invocar o direito de Israel à terra que ocupa, em meio de um conflito de dimensões praticamente mundiais. Esses poucos versículos do capítulo 15 não são, pois, um fragmento piedoso qualquer, sem importância. Trinta e sete séculos mais tarde (desde que se colocou por escrito esse relato anteriormente oral), continua sendo considerado decisivo, cultural e politicamente falando.
Mas foi histórico um fato tão importante? Mais concretamente, é histórico o personagem protagonista, Abraão? Em muitas universidades, querendo falar de fatos históricos, não de «crenças» religiosas, faz tempo que se chegou à convicção de que não, de que Abraão nem os Patriarcas bíblicos são personagens históricos concretos, à luz das pesquisas arqueológicas mais avançadas. Obviamente, estamos diante de uma nova edição do conflito da fé bíblica com a ciência. Em nossa fé e em nossas eucaristias podemos continuar falando de tudo isto, mas não poderíamos fazê-lo no âmbito rigoroso da ciência ou da universidade.

Não vamos entrar aqui na discussão do tema, pois não seria possível abordá-lo adequadamente. Somente queremos fazer constar aqui esta questão nova, todavia pendente. Como no domingo passado, recomendamos abordar o tema do «novo paradigma arqueológico-bíblico». (Consultar a revista VOICES (http://eatwot.net/VOICES) e tomar o número de dezembro de 2015 –na internet, gratuito– (ou buscar diretamente aqui [http://eatwot.net/VOICES/VOICES-2015-3&4.pdf]); aí está um bom material de leitura para iniciar-se no tema, em várias línguas).
A carta de Paulo aos Filipenses tem uma série de pontos que mereceriam se discutidos. Assinalemos, entretanto, que 3,1-4,1 parece ser uma unidade (ou talvez até 4,3 pela repetição do convite à alegria). Na maior parte do cap. 3 Paulo alerta a comunidade contra os “cães”, “operários maus”, “falsos circuncisos”, tudo o que parece uma ironia contra os grupos judaizantes, isto é, aqueles que pretendiam que os cristãos para serem verdadeiramente salvos previamente deviam aceitar a circuncisão. O tema é complicado: quem eram? A coisa se discute, mas parecem ser grupos que pretendem que os cristãos vindos do mundo não judeu se façam a si mesmos primeiramente judeus (pela circuncisão) para poder gozar logo dos benefícios da salvação. Pode ser para evitar conflitos: o judaísmo é uma religião lícita, as novidades não são bem vistas por alguns gregos; pode ser por fechamento diante da novidade da parte dos “judaizantes”; pode ser por uma espécie de idolatria da Lei, a circuncisão e a mesma lei postas quase no mesmo nível que Deus... a questão é que missionários itinerantes chegaram a Filipos e insistiram que não é necessário fazer-se judeus pela circuncisão, e deixar de ser cães (= pagãos). Paulo lhes diz que eles são os incircuncisos, os cães, etc... A seguir, apresenta uma espécie de “currículum vitae” frente aos que o questionavam: alega que ele tem tantas ou mais razões para gloriar-se de ser judeu, mas não põe aí sua segurança, “tudo isso o considera como esterco” e segue caminhando para alcançar a Cristo. De onde estivermos, prossigamos (3,16).
O Evangelho da Transfiguração segundo a versão de Lc propõe uma série de elementos que é interessante levar em conta. A diferença com os textos de Mt e Mc fez com que muitos se perguntem se Lc teve uma fonte própria, embora outros pensam que possivelmente as diferenças se devam propriamente à redação do evangelista.

Os elementos comuns são conhecidos: Jesus anunciou que o rechaço e a morte lhe esperam. Nos outros Sinóticos Pedro se escandalizou e Jesus o compara com “Satanás” embora isto é omitido por Lc. Jesus anuncia que aquele que quiser ser discípulo deve carregar a cruz (“cada dia”, acrescenta Lc). Isto é muito duro, mas termina aclarando que “alguns dos que estão... não experimentarão a morte até que vejam” (Mateus esclarece “ao Filho do homem vindo...”) o Reino. Precisamente Jesus separa alguns e lhes fará “ver”. Assim acontece a Transfiguração.
Há elementos que são próprios de Lc e são interessantes: diferente de Mc/Mt os dias são “oito”, Jesus sobe “ao” monte (como se soubéssemos qual é) e sobe “para orar”, o que é muito frequente em Lc; o que ocorre acontece “enquanto orava”, como uma consequência desta oração. Lc agrega como algo importante o conteúdo da conversa entre Jesus, Moisés e Elias. Agrega o temor no meio da nuvem, Jesus é, além do mais, “Filho” apresentado como “eleito”. Finalmente, Lc omite toda a relação entre Elias e o Batista na descida do monte. É interessante que este monte não seja o monte Sião, lugar onde Deus se encontra com seu povo: a citação “este é meu filho” remete ao Sl 2 que no v.6 diz que “instalou o seu rei em Sião, seu monte santo”.

Na presença de Moisés e Elias Pedro intervém, mas “não sabe o que dizia”, provavelmente Lc lê a clássica incompreensão própria de Mc pensando que é toda a Igreja a que deve ser reunida pelo Senhor, ou porque não se pode dar a Deus uma morada... A nuvem é um sinal da presença divina e de sua glória (“viram a glória”, v.32), e por isso quando os discípulos entram na nuvem (apenas Lc afirma expressamente que também eles ficam cobertos pela nuvem) “se encheram de temor”; eles não são simples espectadores, a nuvem é reunião dos discípulos ao redor da palavra de Deus, e unidos por sua vez com os personagens do céu numa espécie de “comunhão dos santos”. No entanto, como no Getsêmani, o sono os vence (22,45-46), não são testemunhas do diálogo, e somente depois da ressurreição compreenderão.

“Ouvi-o” é a chave do relato: para estar em proximidade com Jesus não é necessário armar tendas, mas ouvi-lo, viver de sua palavra. A peregrinação não terminou, estamos a caminho, embora a transfiguração ilumine brevemente o escândalo da cruz anunciada; a Igreja em marcha para o seu êxodo no céu contempla o monte, como Israel contemplava o Sinai em seu êxodo.

De um golpe, subitamente tudo termina e encontramos a “Jesus sozinho”. Sem nenhuma proibição, os discípulos guardam o secredo, certamente porque não compreenderam e se mantêm no mistério.

Comentário

Jesus é tão estranho...! Depois de jogar fora todas as expectativas próprias de seu tempo, e frisar que como Messias será morto, e assim salvará a todos, -depois disso-, diz que seus seguidores devem trilhar seu mesmo caminho, devem enfrentar as mesmas cruzes, e até o mesmo martírio, e isto cada dia!... Quem entende isso? E quando tudo parece, quase, um convite ao masoquismo, ele se nos manifesta transfigurado... "isto é o que lhes espera!", nos assinala, como num relâmpago no meio da noite. Cruz e ressurreição vão tão de mãos dadas, que é impossível separá-las. A ressurreição dá um sentido novo e frutífero a uma vida que quer desgastar-se e entregar-se, como o fruto dá sentido ao grão enterrado. A morte também dá um sentido novo à ressurreição. O amor nunca se torna tão generoso como quando dá a vida!!!. E Jesus não será um Messias “lá nas nuvens”, mas alguém que caminha os nossos passos, alguém que passou pela cruz e que se dirige a Jerusalém, terra de Páscoa, e terra que é ponto de partida da missão.

A transfiguração é uma antecipação; é um "eclipse ao contrário": uma luz no meio da noite. Dá um sentido completamente novo à vida, e à morte! Torna compreensível a maravilhosa reflexão de D. Hélder Câmara: "Quem não tem uma razão para viver, não tem razão pela qual morrer”.

A Transfiguração nos diz: "isto é o que lhes espera”. E ainda: "dar a vida vale a pena". Todo processo de conversão e mudança tem sentido porque temos uma rocha firme, temos alguém que não muda e garante nossa vida fecunda, um "ressuscitado que é o crucificado" (J. Sobrino). Por isso é muito importante “escutar” a Jesus. É a voz do profeta do fim dos tempos, do profeta como Moisés, que nos ensina o caminho da vida, o caminho do êxodo que é caminho de Páscoa.

Oração

Ó Deus, nosso Pai, como o evangelista Lucas, também nós cremos que, de fato, na vida de Jesus Vós mesmo nos estais dirigindo vossa Palavra. Fazei que, iluminados por ela, possamos transfigurar e olhar de um modo novo as realidades que também devemos transformar, unidos a todos os homens e mulheres que, iluminados também de mil maneiras por vossa mesma Palavra Universal, caminham para o mesmo «outro mundo possível» que Vós quereis ajudar-nos a construir entre todos os povos da Humanidade mundializada. Nós vos pedimos por Jesus, vosso Filho e nosso Irmão. Amém.

Santo do Dia
S. Gertrudes de Nivela
c. 626-659 ? abadessa ? patrona dos peregrinos, invocada
contra os ratos, tumores ? \"Gertrudes? significa \"aquela que
encanta com o poder da lança?

Natural de Landen, Bélgica, Gertrudes foi uma sábia, austera e bondosa abadessa, descendente de uma família de santos: o pai foi Pepino I, o Velho; a mãe, S. Ita ou Iduberga; S. Modelado, irmão; S. Bégua, irmã. Em 640, aos 14 anos, perdeu o pai e sua mãe aconselhou-a a \"tomar o véu das virgens?. A convite de S. Amando, S. Ita fundou um mosteiro feminino em Nivela, em Brabante, do qual Gertrudes mais tarde se tornaria abadessa. Tal mosteiro é um dos mais antigos construídos nos Países Baixos. Governou o mosteiro com sabedoria e inteligência, fazendo-se ajudar por sábios conselheiros e delegando aos monges a administração dos trabalhos externos. Gertrudes manteve estreitas relações com os monges irlandeses e fez vir de Roma os santos Foilão e Ultão, com o encargo de instruir a comunidade monástica no canto e na meditação. Aos 30 anos de idade, consumida pelas árduas penitências, confiou a abadia aos cuidados da sobrinha Vulfetrude, passando a dedicar-se apenas à leitura da Sagrada Escritura, à oração e à contemplação. Ao sentir que seus dias chegavam ao fim, mandou dizer a S. Ultão: \"Gertrudes se aproxima do fim e teme essa aproximação, apesar de estar perpassada de alegria?.