Consulta diaria

Primeira leitura: Nm 6,22-27: 
Invocarão o meu nome sobre os filhos de Israel e eu os abençoarei.
Salmo: Sl 66,2-3.5.6.8 (R. 2a): 
Que Deus nos dê a sua graça e sua bênção.
Segunda leitura: Gl 4,4-7: 
Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher.
Evangelio: Lc 2,16-21:
Encontraram Maria e José e o recém-nascido. E, oito dias depois, deram-lhe o nome de Jesus.

 

 

Naquele tempo: Os pastores foram às pressas a Belém e encontraram Maria e José, e o recém-nascido, deitado na manjedoura. Tendo-o visto, contaram o que lhes fora dito sobre o menino. E todos os que ouviram os pastores ficaram maravilhados com aquilo que contavam. Quanto a Maria, guardava todos estes fatos e meditava sobre eles em seu coração. Os pastores voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo que tinham visto e ouvido, conforme lhes tinha sido dito. Quando se completaram os oito dias para a circuncisão do menino, deram-lhe o nome de Jesus, como fora chamado pelo anjo antes de ser concebido.

Comentário

Liturgicamente, hoje é a festa da “Santa Mãe de Deus, Maria”; é também a “oitava do Natal”; e, portanto, a recordação da “circuncisão de Jesus”, celebração judaica que acontecia no oitavo dia do nascimento dos meninos, e na qual se lhes dava o nome. Para o homem e a mulher de hoje, esses três componentes da festividade litúrgica de hoje ficam muito distantes, tanto pela linguagem na qual são expressos, como pelo “imaginário religioso” a que pertencem...

Mas hoje é também o primeiro dia do ano civil, “Ano Novo”, e o Dia Mundial da Paz, que mesmo originalmente sendo uma iniciativa eclesiástica católica, atingiu uma notável aceitação na sociedade, gozando já de um certo estatuto civil.

Como se pode ver, portanto, há uma boa distância entre a comemoração litúrgica e os motivos “modernos” da celebração. Esta distância, que se repete em outras datas com muita frequência, fala por si mesma da necessidade de atualizar o calendário litúrgico, e, enquanto essa tarefa não for levada a cabo oficialmente por quem deve será preciso que os agentes de pastoral tenham criatividade e audácia para reinterpretar o passado, abandonar o que está morto, e recriar o espírito e às vezes a letra mesma das celebrações.

Vejamos então em primeiro lugar os textos bíblicos.

Nm 2,22-27 é a chamada bênção aarônica (de Aarão), porque se afirma que Deus a revelou a Moisés para que este, por sua vez, a ensinasse a Aarão e seus filhos, os sacerdotes de Israel, para que com ela abençoassem o povo. Certamente foi amplamente usada no antigo Israel. Inclusive foi encontrada gravada em plaquetas metálicas para que fosse levada ao pescoço, ou amarrada ao corpo, como uma espécie de amuleto. Arqueologicamente estas plaquetas datam da época do 2º templo, ou seja, do ano 538 aC. em diante. É muito bom começar o ano com uma bênção da parte de Deus: que seu rosto amoroso brilhe sobre todos nós como oferta de paz. A paz tão desejada pela humanidade inteira, e lamentavelmente tão esquiva. Porém não basta que Deus nos abençoe por meio de seus sacerdotes. Não basta que ele nos mostre o seu rosto. Aqui não se trata de bênçãos mágicas, mas de um chamado a empenhar-nos também nós na consecução e construção da paz: conosco mesmos, em nosso entorno familiar, com os de perto e os de longe, com a natureza tão maltratada por nossas cobiças; paz com Deus, Paz de Deus.

Bom começo de ano com essa bênção. O refrão popular consagrou esse desejo de “voltar a começar” que todos sentimos ao chegar esta data: “Ano novo, vida nova”. Boa ocasião para esquecer os erros, limpar-se das culpas que molestam a consciência, inaugurar uma nova página do livro da vida, e começá-la com o pé direito, dando asas aos melhores desejos do coração... Por isso é bom começar o ano com uma bênção nos lábios, depois de escutar a bênção de Deus em sua Palavra.

Bendigamos ao Senhor por tudo o que vivemos até agora, e pelo novo ano que põe ante nossos olhos: novos dias pela frente, novas oportunidades, tempo à nossa disposição... Louvemos ao Senhor pela misericórdia que teve para conosco até agora. E também porque vai nos permitir que sejamos também nós uma bênção neste ano que começa: bênção para os irmãos e bênção para Deus mesmo. Ano novo, vida nova, bênção de Deus.

Gl 4,4-7 é uma concentrada síntese do que Paulo nos ensina em tantas passagens de suas cartas. Em primeiro lugar, nos diz que o tempo que vivemos é de plenitude, porque nele Deus enviou o seu Filho, não de qualquer maneira, mas “nascido de mulher e nascido sob a lei”, ou seja, semelhante em tudo a nós, à nossa humanidade e aos nossos condicionamentos históricos. Mas este rebaixamento do Filho de Deus, alcançou para nós a maior de todas as graças: a de chegar a ser, todos nós, seres humanos, sem exclusão alguma, filhos de Deus, capazes de chama-lo “Abba”, isto é, Pai. Nossa condição filial fundamenta uma nova dignidade de seres humanos livres, herdeiros do amor de Deus. Pareceriam lindas palavras, nada mais, frente a tantos sofrimentos e misérias que ainda experimentamos, mas trata-se de fazermos a nossa parte para que a obra de Jesus Cristo se torne realidade. Devemos apropriar-nos de nossa dignidade de filhos livres, rechaçando os males pessoais e sociais que nos angustiam, lutando juntos contra eles. Isto implica uma tarefa e uma missão: a de fazer-nos verdadeiros filhos de Deus, a nós e a nossos irmãos que desconhecem sua dignidade.

Nascido de mulher, nascido sob a lei, nos recorda Paulo (Gl 4,4). Nasceu na fragilidade, na pobreza, fora da cidade, numa gruta, porque não houve para eles lugar na hospedaria... Nasce na mesma situação que a maioria do povo, os simples, os humildes, os sem poder.

Este nascimento real e concreto é assumido por Deus para abraçar no amor a todos os que a tradição havia deixado fora. É a visita real daquele que, por simples misericórdia, nos dá a graça de poder chamar a Deus com a familiariedade de Abba -“paizinho”- e a possibilidade de considerar a todos os homens e mulheres irmãos muito muy amados.

Em Jesus, nascido de Maria -a mulher que aceitou ser instrumento nas mãos de Deus para iniciar a nova história- todos os seres humanos fomos declarados filhos e não escravos, fomos declarados coerdeiros, por vontade do Pai. A bênção ou benevolência de Deus para os seres humanos dá um grande passo: Deus já nos abençoou com palavras, e agora abençoa todos os seres humanos e também toda a criação, com a mesma pessoa de seu Filho, que se torna irmão de todos. E ninguém fica marginalizado de seu amor.

“Apareceu a bondade de Deus” em Jesus, e é hora de alegria profunda, para fazer saber ao mundo -e à criação mesma- que Deus floresceu em nossa terra e todos somos depositários dessa herança de felicidade.

Lc 2,16-21, numa linguagem “intencional”, servindo-se de um gênero literário (“evangelho da infância”) que utiliza alguns sinais, nos mostra que Jesus não nasce entre os grandes e poderosos do mundo, mas entre os pequenos e humildes; como os pastores de Belém, que não são meras figuras decorativas de nossos presépios, mas que eram, nos tempos de Jesus, pessoas malvistas, com fama de ladrões, de ignorantes e de incapazes de cumprir a lei religiosa judaica. Foi a eles em primeiro lugar que os “anjos” chamaram para saudar e adorar o Salvador recém-nascido. Eles se converteram em anunciadores das maravilhas de Deus que haviam podido ver e ouvir por si mesmos. Algo semelhante aconteceu com Maria e José: não eram um casal de nobres nem de poderosos, eram apenas um humilde casal de artesãos, sem poder nem prestígio algum. Mas Maria, a mãe, “guardava e meditava estes acontecimentos em seu coração”, e certamente se alegrava e dava graças a Deus por eles, e estava disposta a testemunhá-lo diante dos demais, como o fez diante de Isabel, entoando o Magnificat. Tudo isso dentro de uma composição teológica mais elaborada do que sua aparente ingenuidade pudesse insinuar. Em todo caso, a simplicidade e a pobreza do relato e do que foi relatado casam perfeitamente com o espírito do Natal.

A “maternidade divina de Maria”, motivo oficial da celebração litúrgica de hoje, é um dos três “dogmas” marianos -se é que se pode falar assim-, é uma formulação que há tempo vem suscitando incômodo aos ouvidos de quem a escuta partindo de uma imagem de Deus adulta e crítica. Como ocorre com tantos outros “dogmas” e tradições tidas como tais, o povo cristão as fundiu fantasticamente com os evangelhos, chegando a pensar que provêm diretamente do evangelho.

O versículo de Gl 4,4 que lemos hoje é tudo o que Paulo diz de Maria. Nem sequer cita seu nome. A maternidade divina de María no cristianismo é claramente uma construção eclesial. Os evangelhos não sabem nada dela, e não será formulada e declarada senão no século V. Neste contexto, é importante tirar a poeira e recordar a história deste “dogma”, com a conhecida “manipulação” do concílio de Éfeso, no ano 431, quando Cirilo de Alexandria forçou e conseguiu a votação antes da chegada dos padres de Antioquia, que representavam no Concílio a opinião contrária. Diz-se que o povo cristão acolheu com entusiasmo esta declaração mariana, mas deve-se dizer que se trata dos habitantes de Éfeso, a cidade da antiga “Grande Deusa Mãe”, a originária deusa-virgem Ártemis (ou Artemísia), Diana... A fórmula de Éfeso, em qualquer caso, sempre foi vista como suspeitosa de conceber a filiação divina e a encarnação em termos “monofisitas”, que até coisificam a Deus, como se se pudesse procriar a Deus e não um homem no qual, enquanto Filho de Deus, Deus mesmo se nos faz patente à fé... (Estamos nos referindo ao que nos diz Hans Küng, em Ser cristiano, Cristiandad, Madrid 1977, pág. 584ss).

O título “mãe de Deus” não é bíblico, como se sabe. Para o evangelho, Maria é sempre, nada mais e nada menos que “a mãe de Jesus”, título tão encantador, real e histórico, que acabará sepultado e abandonado na história sob um monte de outros títulos e invocações construídos eclesiasticamente. Santo Agostinho (séculos IV e V) não chega a conhecer hinos nem orações nem festividades marianas. O primeiro exemplo de uma invocação direta a Maria o encontramos no século V, no hino latino “Salve Sancta Parens” (Salve Santa Mãe).

A Idade Média europeia dará vasão a seu imaginário teológico e devocional a respeito de Maria. Enquanto os primitivos Padres da Igreja ainda falam das possíveis imperfeições morais de Maria, no século XII aparece a opinião de sua isenção do pecado, tanto do pessoal como do “original”. No mesmo século XII aparece a Ave Maria. O Angelus no século XIII. O rosário no XIII-XIV. O mês de Maria e o mês do rosário no XIX-XX. Os pontos culminantes desta evolução serão a definição da “imaculada conceição de Maria” (1854, por Pio IX) e a definição da “assunção de Maria em corpo e alma ao céu” (1950, por Pio XII). Momentos finais deste apogeu mariano são a “consagração do mundo ao Coração de Maria” em 1942 e 1954, por Pio XII.

Porém todo este marianismo remeteu com surpreendente rapidez com o Concílio Vaticano II, que renunciou a novos “dogmas” e deixou de lado a anterior mariologia “cristotípica” (característica da escola mariológica espanhola pré-conciliar), dando passo a uma compreensão mariológica muito mais sóbria, bíblica e histórica, na linha “eclesiotípica” (da escola alemã principalmente). Embora a veneração dada a Maria (hyper-dulía), superior à tributada aos santos (dulía), sempre foi distinguida teóricamente daquela dada a Deus (latría), o certo é que na religiosidade popular muitas vezes Maria apareceu como um verdadeiro “correlato feminino da divindade”, e sua condição de criatura e de discípula de Jesus e membro da Igreja quase ficaram esquecidas (em forma paralela ao que ocorreu com Jesus a respeito de sua humanidade).

Hoje, a imagem conciliar de Maria que a Igreja tem é a de “mãe de Jesus”, desmitificada, despojada de tantas aderências fantásticas que lhe foram impostas ao longo da história: Maria é uma cristã, muito próxima a Jesus, uma “discípula” sua, um destacado membro da Igreja: a “mae de Jesus” é um título insubstituível que lhe dá o mesmo evangelho, e a cujo uso muitos fiéis voltam na atualidade, prefirindo-o àquele criado no século V. A Constituição dogmática Lumen Gentium, do Concílio Vaticano II, em seu capítulo oitavo (nºs 52-69) oferece ainda a melhor síntese da mariologia para nossos tempos. O Concílio Vaticano II continua nos apontando o caminho, também na mariologia. Na hora de pregar sobre Maria, devemos remeter-nos, necessariamente, a esse capítulo oitavo da Lumen Gentium.

Concluimos. Continuamos no tempo de Natal, tempo no qual a ternura, o amor, a fraternidade, o carinho familiar... nos são mais palpáveis do que nunca. A ternura de Deus para conosco, que se expressou no menino de Belém, inunda a nossa vida, nas luzes coloridas, nos enfeites natalinos, nas canções e reuniões familiares. Tudo ajuda para isso neste tempo ainda de Natal. Deixemos que estes sentimentos criem raízes em nosso coração, para que perdurem o ano todo.

Ao começar o ano, ao por o pé pela primeira vez neste novo presente que o Senhor oferece à nossa vida, vamos agradecer-lhe de todo o coração pela alegria de viver, pela oportunidade maravilhosa que nos dá de continuar amando e sendo amados, e pela capacidade que nos deu para mudar e corrigir.

Outro enfoque válido e proveitoso da homilia podería orientar-se para o tema do Dia Mundial da Paz... assim como para o fato do Ano Novo, que mesmo sendo algo simplesmente convencional, astronomicamente insignificante, tem o valor simbólico inevitável e profundo de recordar-nos a inexorável passagem do tempo...

Oração

Ó Deus da Paz, Pai e Mãe de todos os homens e mulheres, e quereis que vivamos como irmãos em unidade fraterna. Neste dia que dá começo ao novo ano, vos pedimos de todo o coração: concedei-nos a Paz, dom vosso e ao mesmo tempo fruto da Justiça, e fazei de nós esforçados construtores da Paz, para que mereçamos a bem-aventurança que Jesus anunciou, Ele que é vosso Filho e irmão nosso, pelos séculos dos séculos. Amém.

Santo do Dia
Maria, Mãe de Deus
séc. V ? \"Maria? significa \"a amada, a predileta de Deus?

É uma das mais antigas festas marianas da Igreja. Em 431, no III Concílio de Éfeso, Maria foi aclamada Mãe de Deus, pondo fim à heresia dos que afirmavam ser ela apenas a mãe de Jesus-homem e não a mãe do Verbo encarnado, do Cristo Jesus, verdadeiramente homem e verdadeiramente Deus. Maria ocupa o seu lugar nas Escrituras ao lado de grandes mulheres do povo de Deus. É a nova Eva que diz \"sim? a Deus (Gn 2,22;3,15-20; Lc 1,28-35); a nova Sara que acolhe na fé a promessa do Anjo (Gn 18,14; Lc 1,35ss); a nova Rebeca (Gn 24ss; Mt 1,16ss); a nova Raquel (Gn 35,16; Mt 2,17-18); a nova Débora (Jz 5,24; Lc 1,28ss; 11,27; Jo 2,1-5ss); a nova Miriam, irmã de Moisés (Ex 15,20ss; Mt 2,13-15); a nova Judite (Jd 13,13ss), a nova Ester (Est 2,16ss); a nova Rute (Rt 1,8ss; Lc 1,38s), etc. A própria história do cristianismo está repleta da presença materna e protetora dessa mulher que, com o seu \"sim? a Deus, tornou-se a Mãe do Salvador, a Mãe da Igreja e nossa Mãe.