Consulta diaria

Primeira leitura: Ap 7,2-4.9-14: 
Vi uma multidão imensa de gente de todas as nações, tribos, povos e línguas.
Salmo: Sl 23(24),1-2.3-4ab.5-6 (R. cf. 6): 
É assim a geração dos que procuram o Senhor!
Segunda leitura: 1Jo 3,1-3: 
Veremos Deus tal como é.
Evangelio: Mt 5,1-12a: 
Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus.

 

Naquele tempo: Vendo Jesus as multidões, subiu ao monte e sentou-se. Os discípulos aproximaram-se, e Jesus começou a ensiná-los: "Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus. Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados. Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus. Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus. Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem, e, mentindo, disserem todo tipo de mal contra vós, por causa de mim. Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus.

Comentário

Celebramos hoje a Solenidade de Todos os Santos. Bom seria que os "santos" nela celebrados não se reduzissem somente aos do "mundo católico", os santos de nosso pequeno mundo, da Igreja Católica, mas a "todos os santos do mundo", aos santos de um mundo verdadeiramente "cat–hólico" (etimologicamente, referido ao todo), ou seja, "universal". Não queremos celebrar neste dia todos os santos que já estão diante do Mistério inefável? Pois como vamos limitar-nos a pensar em "catálogo romano dos santos", dos "canonizados" pela Igreja católica romana, conforme essa prática levada a efeito desde o século XI, de "inscrever" oficialmente os santos particulares de nossa Igreja, nesse livro? Será que aqueles que estão oficialmente inscritos durante nove séculos nesta única Igreja são "todos os santos"... ou, quem sabe, sejam uma insignificante minoria entre todos eles?
Poucas festas como esta requerem ser "universalizadas" para fazer honra a seu nome: a comemoração de "todos os santos". Portanto, deve-se fazer um esforço por entendê-la com uma real universalidade. No mínimo, esta é uma festa "ecumênica": agrupa também todos os cristãos que viveram sua fé em Jesus tentando imitá-lo na prática do bem. Porém é mais que ecumênica, porque não contempla apenas os santos cristãos, mas "todos", todos os que foram santos aos olhos de Deus. Isso quer dizer, obviamente, que também inclui os "santos não cristãos"... os santos de outras religiões (deveria ser uma festa inter-religiosa), e inclusive os santos que não pertencem a nenhuma religião, os "santos pagãos" (Danielou deu este título a um de seus livros), os santos anônimos (estes devem ser uma verdadeira legião), inclusive os "santos ateus", aos quais a passagem de Mt 25,40 põe em evidência ("todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes"...).
Esta é uma festa, pois, que nos leva a refletir sobre dois aspectos: sobre a santidade mesma (o que é, em que consiste, que "confessionalidade" tem...?), e sobre o "Deus de todos os santos". Muitas pessoas ainda pensam –talvez sem cair na conta– em "um Deus muito católico". Para alguns, Deus seria "católico, apostólico... [e inclusive] romano". Ou seja, "nosso". Ou "um Deus como nós". Pode ser também, um Deus... feito "à imagem e semelhança" nossa!
A atitude universalista, a amplidão do coração e da mente para a universalidade, para a acolhida de todos sem etiquetas particularistas, sempre nos leva a questionar a imagem de Deus. Deus não pode ser somente nosso Deus, o nosso, que pensa como nós e que intervém na história sempre segundo nossas categorias e de acordo com os nossos interesses... Deus, sim é verdadeiramente Deus, há de ser o Deus de todos os santos, o Deus de todos os nomes, o Deus de todas as utopias, o Deus de todas as religiões (incluída a religião dos que com sinceridade e sabendo o que fazem, optam com boa consciência por deixar de lado "as religiões", mas não "a religião verdadeira" da qual, por exemplo, fala São Tiago em sua carta, 1, 27). Deus é "católico" mas no sentido original da palavra. Está bem além de toda religião concreta. Está "com todo aquele que ama e pratica a justiça, de qualquer religião que for", como disse Pedro na casa de Cornélio (At 10).
Hoje isto tudo nos parece tão natural, mas faz mais de 50 anos que estamos pensando desta maneira –exatamente o tempo em que se celebrou o Concílio Vaticano II–. As vésperas daquele Concílio, o famoso teólogo dominicano Garrigou-Lagrange (avançado, progressista, e por isso perseguido) escrevia, com a mentalidade que era comum no ambiente católico: "As virtudes morais cristãs são infusas e essencialmente distintas, por seu objeto formal, das mais excelsas virtudes morais adquiridas como descrevem os mais famosos filósofos… Há uma diferença infinita entre a temperança aristotélica, guiada somente pela reta razão, e a temperança cristã, guiada pela fé divina e pela prudência sobrenatural" (Perfection chrétienne et contemplation, Paris 1923, p. 64). Danielou (1905-1974), por sua parte, afirmava: "Existe o heroísmo não cristão, mas não existe uma santidade não cristã. Não devemos confundir os valores. Não há santos fora do cristianismo, pois a santidade é essencialmente um dom de Deus, uma participação em Sua vida, enquanto que o heroísmo pertence ao plano das realidades humanas" (Le mystère du salut des nations, Seuil, Paris 1946, p. 75). Todas as grandes figuras da humanidade, personagens como Sócrates ou como Gandhi... somente poderiam ser considerados heróis, não santos. Não seriam incluídos hoje nesta festa, segundo a visão católico-romana daqueles tempos pré-conciliares, porque "santos", poderiam ser somente os bons cristãos, e católicos! Esta é uma das tantas "rupturas" realizadas pelo Concilio Vaticano II.
A primeira leitura bíblica desta festa litúrgica, do Apocalipse, mesmo sendo redigida nessa linguagem não somente poética, mas ultra-metafórica, vem nos dizer claramente: a multidão incontável que estava diante de Deus era "de toda língua, povo, raça e nação"... Naquele tempo, falar "das nações" implicava as religiões, porque se considerava que cada povo-raça-nação tinha sua própria religião. João parece contemplar reunidos, naquela apoteose, não somente os judeus-cristãos, mas "todos os povos", o que equivale dizer: todas as religiões.
Se corrigimos assim nossa visão, estaremos mais perto de "ver a Deus tal como é" (segunda leitura), tal como poderemos vê-lo mais além dos véus carnais do chauvinismo cultural ou do tribalismo religioso -que não são muito diferentes -. Obviamente, esses "cento e quarenta e quatro mil" (doze ao quadrado, ou seja, "os Doze", ou "as Doze 'tribos' de Israel", mas elevadas ao quadrado e multiplicadas por mil, isto é, totalmente superadas, extrapoladas, levadas fora de si até dissolver-se entre "toda língua, povo, raça e nação"), esses cento e quarenta e quatro mil, nós os entendemos como um símbolo macroecumênico, ou nos retrocederíamos a um fantástico tribalismo religioso.
As bem-aventuranças fazem parte desta mesma visão "macroecumênica": valem para todos os seres humanos. O Deus que nelas aparece não é "confessional", de uma religião, não é "religiosamente tribal". Não exige nenhum ritual de nenhuma religião, mas o "rito" da simples religião humana: a pobreza, a opção pelos pobres, a transparência de coração, a fome e sede de justiça, a luta pela paz, a perseguição como efeito da luta pela Causa do Reino... Essa "religião humana básica fundamental" é a que Jesus proclama como "código de santidade universal", para todos os santos, os de casa e os de fora, os do mundo "católico"...
Se na festa de Todos os Santos a liturgia nos sugere o texto das Bem-aventuranças, é porque elas são de fato o caminho da santidade universal (e suprarreligional, simples e profundamente humana); e tendo as Bem-aventuranças como carta de navegação para nossa vida é possível alcançar a meta de nossa santificação, entendida como luta constante para alcançar em cada dia o máximo de plenitude segundo a vontade de Deus.
Na homilia, na oração, nas conversas que temos sobre o tema, não deixemos de mencionar hoje a Gandhi, que deve ir de mãos dadas com Francisco de Assis; a Martin Luther King acompanhado do recém-canonizado Oscar Arnulfo Romero –finalmente reconhecido como "mártir" por Roma–; a mística santa Teresa com o incomparável Ibn Arabí; o inefável João da Cruz com o místico Nisagardatta ("Eu sou Isso")... A maneira de mudar a velha mentalidade "tribal", que também nos afetou na concepção da santidade, é praticar, conversar, manifestar a nova mentalidade macroecumênica.
Dentro da perspectiva cristã-católica, para uma aplicação mais parenética deste precedente comentário exegético, recomendamos que se leia com frequência o capítulo V da Constituição Dogmática "Lumen Gentium", do Vaticano II, sobre o "chamado universal à santidade". Antes do Concílio costumava-se pensar que havia uma espécie de "profissionais da santidade", que se dedicavam de um modo especializado a consegui-la, como os monges e os religiosos e religiosas, que viviam, como se dizia, no "estado de perfeição"; aos demais, os leigos, leigas ou seculares, parece que eram dispensados do compromisso de tender à santidade.

Oração

Deus Eterno, Mistério insondável, Força criadora, sem princípio nem fim, Sabedoria escondida: Ensinai-nos a calcular nossos anos, para que possamos adquirir um coração sensato e ajudai-nos a sentir, na fé, a presença espiritual de nossos irmãos e irmãs que nos precederam na existência e no amor. Vós que viveis e fazeis viver pelos séculos dos séculos. Amém. 

Santo do Dia
S. Carlos Borromeu

1538-1584 ? bispo ? \"Carlos? que dizer \"viril?,
\"varonil?, \"vigoroso?

Natural de Arona, Lombardia, S. Carlos Borromeu era formado em Direito Civil e Direito Canônico. Cardeal e secretário particular do papa Pio IV, teve importante papel na reforma tridentina: fundou seminários para a formação do clero, renovou a pastoral, promoveu a evangelização popular. Em um Sermão proferido no último sínodo, exortava: Se ao menos uma fagulha do amor divino já se acendeu em ti, não a mostres logo, não a exponhas ao vento! Mantém encoberta a lâmpada, para não se esfriar e perder o calor; isto é, foge, tanto quanto possível, das distrações; fica recolhido junto de Deus, evita as conversas vãs... Tua missão é pregar e ensinar? Estuda e entrega-te ao necessário para bem exerceres este encargo. Faze, primeiro, por pregar com a vida e o comportamento. Não aconteça que, vendo-te dizer uma coisa e fazer outra, zombem de tuas palavras, abanando a cabeça (cf. Liturgia das horas, v. IV, p. 1430).