Consulta diaria

Primeira leitura: Nm 21,4b-9: 
Aquele que for mordido e olhar para ela viverá.
Salmo: Sl 77(78),1-2.34-35.36-37.38 (R. cf. 7c): 
Das obras do Senhor, ó meu povo, não te esqueças!
Segunda leitura: Fl 2,6-11: 
Humilhou-se a si mesmo; por isso, Deus o exaltou acima de tudo.
Evangelio: Jo 3,13-17:
É necessário que o Filho do Homem seja levantado.

 

Naquele tempo, disse Jesus a Nicodemos: "Ninguém subiu ao céu, a não ser aquele que desceu do céu, o Filho do Homem. Do mesmo modo como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que o Filho do Homem seja levantado, para que todos os que nele crerem tenham a vida eterna. Pois Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna. De fato, Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele".

Comentário

Estamos na "festa" (litúrgica) da "Exaltação" da Santa Cruz. Trata-se desse sinal que identifica mundialmente o cristianismo, como a meia-lua identifica o Islã ou a estrela de seis pontas formadas por dois triângulos equiláteros superpostos –a estrela de Davi– é o emblema do judaísmo.

Dentro da mentalidade mágica, a cruz teve na história quase tanto valor como o Cristo que nela foi crucificado. "O sinal da cruz" espantou o demônio, afugentou as maldições, "persignou" a todos os devotos, foi traçada milhões de vezes no ar derramando bênçãos benfazejas.

Na religiosidade popular, Cristo foi sobretudo o sofredor, o condenado, açoitado, crucificado, homem das dores, morto entre sofrimentos insuportáveis. A cruz foi o sinal de dor, tanto da dor de Cristo como da dor universal. Para os cristãos, o sofrimento de Cristo tem referência universal.

A inevitável dimensão dolorosa da cruz, faz com que sua "exaltação" não deixe de implicar alguns problemas. Alguns agentes de pastoral, com frequência, tentam considerá-los óbvios, olhando para outro lado, calando, ou falando de outra coisa. Este método evasivo, porém, não é o melhor serviço que se pode prestar ao povo cristão. Cremos que é melhor encarar os problemas de frente e dar-lhes nome e novos limites. É o que tentaremos fazer.

O primeiro grande perigo é essa "exaltação" mesma da cruz, por aquilo que ela possa ter de exaltação do sofrimento pelo sofrimento, como se tivesse um valor cristão por si mesmo. Embora se conserva em boa parte do povo cristão uma imagem de Deus do sofrimento e amante do sofrimento, que parece alegrar-se quando vê alguém sofrer, ou que somente concede sua graça ou sua benevolência ao ser humano em troca de sofrimento. Muitas promessas da religiosidade popular são feitas sobre esse esquema: eu me sacrifico, ofereço a Deus um mal que faço a mim mesmo, como "pagamento antecipado a ele, em troca do favor solicitado"… Este Deus, diante de quem o que vale e o que lhe agrada é o sofrimento, não é um Deus cristão; a exaltação de uma cruz que inclua –consciente ou inconscientemente– uma imagem de Deus assim, não seria uma exaltação cristã.

Essa teologia que ainda vigora, é um problema gravíssimo, pois para ela Deus enviou o seu Filho ao mundo para sofrer e sofrer horrivelmente, porque Ele seria desse modo o único capaz de oferecer uma reparação infinita à dignidade de Deus ofendida pelo ser humano em um "pecado original" (que historicamente não existiu)... Sem fundamento real no evangelho, esta teologia apareceu logo depois dos primeiros séculos, e foi Santo Anselmo de Cantuária (século XI) que lhe deu a re-configuração definitiva com que chegou até nós mesmos, em nossos catecismos infantis. É a visão clássica da "redenção", a morte de Jesus na cruz redentora, que "paga" com seu sofrimento ao Pai, para que este restabeça a boa ordem de suas relações com a Humanidade. Estritamente unida a esta teologia está a ideia do "sacrifício" de Cristo na Cruz. Uma teologia que, por uma parte, evidencia uma imagem de Deus hoje inaceitável. Por outra, trata-se de uma teologia que ainda consta –inexplicavelmente– nos documentos oficiais... Celebrar a Exaltação da Santa Cruz sem abordar estes problemas pode ser mais cômodo, mas não mais sincero nem mais proveitoso ou pedagógico.

A cruz de Cristo não deveria ser utilizada como símbolo de tudo aquilo que em nossa vida humana há de limitação estrutural, de finitude natural. Esta é uma dimensão natural de nossa vida humana ("as cruzes da vida"), e a cruz de Cristo não tem nada de "natural", mas que tudo tem de "histórico". Na cruz de Cristo –se não quisermos cair em mistificações– não entram suas dificuldades e limitações humanas, nem as nossas: enfermidades, limitações, acidentes, nem a má sorte. Isso não é a cruz de Cristo, mas vicissitudes e peculiaridades da vida humana, que é preciso levar e suportar com graça e coragem.

A cruz de Cristo não foi um "desígnio de Deus", mas um desígnio humano, estritamente humano. Jesus, por sua parte, tampouco procurou a cruz: "Afasta de mim este cálice", e nunca deverá ser buscada a cruz, por si mesma, por parte de seus discípulos. Aquele "Ave Crux, Spes única!" ("Salve, Cruz, única esperança!") do adágio clássico, deve ser tomado com muitas "cautelas" na forma de entendê-lo. Nem Deus, nem Cristo "amam a Cruz", nem nós mesmos devemos "amá-la", mas ao contrário, devemos "combatê-la". A tarefa do cristão, como a de Jesus, é, precisamente, combater a cruz, libertar do sofrimento o ser humano. Claro que, ao lutar contra a cruz levanta-se a animosidade dos que estão interessados egoisticamente nos mecanismos de opressão, pessoas e estruturas que impõem uma cruz sobre aqueles que lutam para libertar o ser humano de toda cruz. Outro adágio mais moderno e mais correto diz: "Procure a verdade e a cruz será colocada em você". Não se deve buscar a cruz, embora não se deva retroceder um milímetro na Verdade e na luta pela Justiça, por medo da cruz que vão impor sobre nós…

De uma vez por todas, o que precisamos exaltar não é a cruz, mas a coragem de Jesus, que optou pelo Reino e por amor, sem temor à cruz que já previa e estava certo de que não escaparia dele. A exaltação da fidelidade de Jesus à Causa do Reino é o verdadeiro conteúdo desta festa.

Algumas pessoas se assustam quando se fazem estas releituras críticas. Parece-lhes tratar de uma atitude negativista... Preferem que se fale somente de coisas positivas, e que o resto fique de lado, para ser superado pelo esquecimento … Não compartilhamos dessa opinião. Estamos num momento de transição teológica, uma transição que é lenta precisamente por causa dessa falta de sentido crítico na teologia e na homilética. Se os pregadores (e os grupos de formação cristã) assumissem como tarefa habitual fazer a "digestão crítica" de todo o velho pensamento que ainda permeia o cristianismo, sem dúvida estaríamos em condições de dialogar melhor com o mundo atual. Por outra parte, toda renovação do pensamento e da vida precisa de um momento de "desconstrução", sem o qual, frequentemente, não é possível uma verdadeira renovação (re-construção).

Oração

Ó Deus Pai e Mãe, que na vida, paixão e morte de Jesus fizestes a máxima revelação ao mundo, conforme nos garante a nossa fé. Nós vos pedimos: concedei-nos o dom de saber redescobrir com olhos humildes tudo que continuastes revelando nestes dois mil anos de história, dentro e fora do cristianismo, para que a Palavra que pronunciastes em Jesus possa ser compartilhada por todos os povos e religiões. Por Cristo nosso Senhor. Amém.

Santo do Dia

Exaltação da Santa Cruz

Esta festa remonta ao ano 335, quando S. Helena, mãe de Constantino I, em peregrinação pelos Lugares Santos, descobriu o madeiro em que Jesus teria sido crucificado. A Santa Cruz foi então exaltada com grande júbilo diante do povo cristão. Em agradecimento a Deus, foram construídas duas basílicas, uma no Gólgota e outra no lugar onde Jesus fora sepultado. S. André de Creta (séc. VIII) afirma:
Celebramos a festa da cruz; por ela as trevas são repelidas e volta a luz... junto com o Crucificado somos levados para o alto para que, abandonando a terra com o pecado, obtenhamos os céus (cf. Liturgia das horas, p. 1269s, v. IV).