Consulta diaria

Primeira leitura: Is 35,4-7a: 
Os ouvidos dos surdos se abrirão e a boca do mudo gritará de alegria.
Salmo: Sl 145,7.8-9a.9bc-10 (R.1.2a): 
Bendize, ó minha alma ao Senhor. Bendirei ao Senhor toda a vida!
Segunda leitura: Tg 2,1-5: 
Não escolheu Deus os pobres deste mundo para serem herdeiros do Reino?
Evangelio: Mc 7,31-37: 
Aos surdos faz ouvir e aos mudos falar.

 

Naquele tempo: Jesus saiu de novo da região de Tiro, passou por Sidônia e continuou até o mar da Galileia, atravessando a região da Decápole. Trouxeram então um homem surdo, que falava com dificuldade, e pediram que Jesus lhe impusesse a mão. Jesus afastou-se com o homem, para fora da multidão; em seguida colocou os dedos nos seus ouvidos, cuspiu e com a saliva tocou a língua dele. Olhando para o céu, suspirou e disse: 'Efatá!', que quer dizer: 'Abre-te!' Imediatamente seus ouvidos se abriram, sua língua se soltou e ele começou a falar sem dificuldade. Jesus recomendou com insistência que não contassem a ninguém. Mas, quanto mais ele recomendava, mais eles divulgavam. Muito impressionados, diziam: 'Ele tem feito bem todas as coisas: Aos surdos faz ouvir e aos mudos falar'.

Comentário

Isaías é o profeta da consolação. O povo de Israel, submerso na dor do exílio, tem necessidade de uma voz de alento e esperança; por isso o profeta lhe convida a encher-se de valor, para que "não tenham medo": é preciso confiar em Deus, pois ele vai livrar o seu povo da escravidão.

O profeta evoca a lembrança da terra da Palestina, suas riquezas naturais, torrentes e mananciais, terra fértil e espaçosa, um paraíso ou uma terra prometida, que lhes espera para depois do exílio, para a qual regressarão como num novo êxodo. Nesta terra voltarão a se instalar e reconstruirão o Templo, a cidade e a história. Viverão também em plenitude, cheios de vida e saúde. O profeta anuncia tantos bens que até parece referir-se à chegada dos tempos messiânicos.

A carta de Tiago é um forte apelo à fraternidade. Quem faz distinção de pessoas na celebração litúrgica não pode ser cristão. Tiago nos fala de diferenças e desigualdades dentro da mesma comunidade, paradoxalmente, onde se deveria construir outro modelo de relação entre os seres humanos. Resumindo: a fraternidade, como fruto do mandamento do amor, começa na mesma celebração litúrgica, e deve fazer-se realidade nas relações sociais dos membros da comunidade.

Cada vez que o cristão celebra a eucaristia deve assumir o compromisso do amor real, um amor que se torna efetivo nas obras que enriquecem a vida e a enchem de humanidade e fraternidade.

O evangelho de hoje nos diz que os pagãos foram também destinados ao anúncio do Reino de Deus por parte de Jesus. Saindo Jesus outra vez da região de Tiro, dirigiu-se por Sidônia até o mar da Galileia, passando pela Decápole, um território pagão. Trouxeram-lhe então um surdo-mudo para que lhe impusesse as mãos.

Esta é um das pouquíssimas vezes que vemos Jesus fora de seu país. Se acreditamos nos evangelhos, parece que Jesus, praticamente, não viajou ao estrangeiro. É importante assinalar que naqueles tempos, ir ao "estrangeiro" era também –sobretudo para os judeus, que se consideravam os únicos escolhidos– ir ao "mundo dos pagãos"... não como hoje.

Neste fragmento do evangelho de Marcos observamos Jesus que está no meio de gente "de outra religião", não judaica … É significativo para nós o comportamento que tem para com essas pessoas que não crêem no Deus de Abraão em quem Jesus crê...

Com efeito, vemos em primeiro lugar que Jesus não está entre os gentios ou pagãos com uma atitude "apostólica", não o vemos preocupado em "catequizar-lhes". Não parece preocupado em fazer proselitismo religioso entre eles: não tenta converter ninguém à sua religião, à fé israelita no Deus de Abraão. E tampouco vemos Jesus aproveitar sua passagem por ali para "pregar alguma doutrina", "ensinar e divulgar as santas máximas de sua religião". Mais ainda: observamos que nem sequer prega, não faz discursos religiosos. Simplesmente "cura". Ou seja, nada de teoria, mas de prática. Fatos, não conversa. "Dar trigo", não "pregar".

Tampouco pode-se dizer que Jesus passava pelo território pagão de olhos fechados, ou com indiferença, ou como se não tivesse nada para fazer ali… Antes, diríamos que Jesus não tem muito a "dizer". Não o vemos discursando, nem oferecendo seu "serviço da palavra", mas curando e recuperando. Não fala do Reino (aquilo que é sua "profissão" e até sua "obsessão" dentro dos limites de Israel); fora de seu território religioso cala sobre o Reino, e se limita a "realizar o Reino". Ou como diz o povo ao vê-lo: "faz o bem", não fala sobre o bem. (E já sabemos que "ubi bonum, ibi Regnum", "onde se faz o bem, ali está o Reino de Deus", ali Deus está reinando, uma fórmula que nos faz cair na conta de uma certa tautologia que se dá entre "bem" e "Reino"; isso já dizia a antífona-canto do salmo 71: "Teu Reino é Vida, teu Reino é Verdade, teu Reino é Justiça, teu Reino é Paz, teu Reino é Graça, teu Reino é Amor..."; a melhor definição do Reino, descritiva, não teórica).

Pensando bem: mesmo que Jesus não pregasse nessa região pagã, "ev-angelizava" sim, no sentido mais exato-etimológico da palavra: da "boa notícia" ("eu-angelo"). Não "informa sobre ela", não trata simplesmente de "transmitir conhecimentos salvíficos", nem sequer de "deixar sinais" ou simplesmente de "anunciar-dizer", mas de "tornar presente", de "pôr aí", de construir esses "fatos e práticas" que, no silêncio "falam por si mesmos" e por isso mesmo são "boa notícia".

"Evangelização prática", sem teorias apenas, nem puras palavras. Não estamos desprezando a teoria, a doutrina, a teologia, a palavra... nem acreditamos que para Jesus não tivesse importância. O que estamos querendo dizer –fixando-nos nele– é que também para nós, como para Ele, o lugar destas dimensões "teóricas" é um lugar "segundo"; o primeiro lugar é para a Vida, para a ação, para a prática do bem que identifica o Reino, não para a palavra que o anuncia. O último que definitivamente perseguimos, é a prática, os fatos, a realidade. A teoria, a palavra, a conscientização... também fazem parte da realidade, mas não como objetivos últimos, mas como "instrumentos" para a consecução plena da Utopia-objetivo último.

Excelente lição para estes tempos de pluralismo religioso e de diálogo inter-religioso, como são os nossos. Talvez nosso histórico zelo apostólico e missionário pela "conversão dos infiéis", pelo "chamado dos gentios à fé cristã", pela "cristianização das nações de outra religião", ou pela "expansão da Igreja" ou sua "implantação em outras áreas geográficas"... deveriam olhar para Jesus e tomar nota de sua peculiar conduta missionária. Hoje, talvez, necessitaríamos calar mais, e simplesmente agir, como fez Jesus, ou seja, dialogar inter-religiosamente começando –como se costuma dizer tecnicamente– com o "diálogo de vida": juntar-nos com os "outros" e conjugar nossos esforços na construção da Vida (na construção do bem: "ibi Regnum!", ali está o Reino!). Porque se conseguimos estar unidos na construção da "Utopia de Deus" (não importa o nome com que ela é designada, está claro), estaremos de fato unidos na adoração (prática) do Deus do Reino. A doutrina, o dogma, a teologia... virão depois. E cairão por seu próprio peso, como fruta madura, quando o diálogo for já uma realidade palpável na prática da vida diária.

"Ele tem feito bem todas as coisas: Aos surdos faz ouvir e aos mudos falar'': este versículo 37 talvez seja uma tradução mal feita, ou uma derivação da exclamação que, provavelmente, a conduta de Jesus suscitou aos observadores: "Fez todo o bem [que pode], até faz os surdos ouvir e os mudos falar". Ou seja, Jesus pregou, sim, aos gentios, mas com "a linguagem dos fatos", e não pedindo uma conversão "mental" à sua religião, ou a uma nova Igreja que ele não estava pensando fundar, mas compartilhando com eles sua "conversão à Utopia". Jesus não tentava converter ninguém a uma nova religião, mas converter todos ao Reino, deixando cada um na religião em que estava. A conversão importante não é para uma (ou outra) religião, mas para o Reino, seja qual for a religião em que se dê.

A missão do missionário cristão deve inspirar-se em Jesus. O missionário –e todos nós, em determinadas circunstâncias– não deve buscar a conversão dos "gentios" para a Igreja, como seu primeiro objetivo, mas sua conversão para a Utopia (seja qual for o nome com o qual o "outro" a chame, e recordando que de nominibus non est quaestio, que "de nomes não se deve discutir"). Essa conversão, é claro, não é de diálogo teórico, nem de pregação doutrinal apenas... mas de "diálogo de vida" e de construção da Utopia.

Oração

Ó Deus de todos os nomes e de todos os Povos. Em nosso irmão Jesus vemos um símbolo claro daquilo que quereis de nós a respeito das demais religiões: uma atitude de respeito para com seus valores e expressões, e a partilha com elas na busca do Reino de Deus e sua Justiça. Nós cremos que todo o resto virá por acréscimo. Expressamos nosso desejo de que nossas atitudes sejam as de Jesus. Vós que viveis e fazeis viver, pelos séculos dos séculos. Amém.

Santo do Dia

S. Pedro Claver

1580-1654 ? jesuíta ? \"patrono universal das missões entre os
negros ? \"Pedro? quer dizer \"pedra?, \"rocha?

Natural de Verdu, Catalunha, S. Pedro Claver foi o Apóstolo dos Negros e dos Escravos. Em 1602, ingressou na Companhia de Jesus e, no julgamento de seus superiores, foi um \"espírito medíocre?, de \"discernimento inferior à média?... \"bom para pregar aos indígenas?. Foi enviado então a Cartagena (Colômbia), onde terminou os estudos teológicos e, em 1616, foi ordenado. Influenciado pelo Jesuíta Alonso de Sandoval, colocou-se a serviço dos escravos negros que ali aportavam, procurando aliviar-lhes os sofrimentos e dar-lhes assistência material e religiosa. E advertia: \"A mão deve preceder o coração?. Por cerca de 35 anos ficou do lado dos negros, declarando-se ser deles \"eterno servo? (Petrus Claver, Aethiopum semper servus).