Consulta diaria

Primeira leitura: Dt 18,15-20: 
Farei surgir um profeta e porei em sua boca as minhas palavras.
Salmo: Sl 94,1-2.6-7.8-9 (R. 8): 
Não fecheis o coração, ouvi, hoje, a voz de Deus!
Segunda leitura: 1Cor 7,32-35: 
A jovem solteira se ocupa com as coisas do Senhor, para ser santa.
Evangelio: Mc 1,21-28: 
Ensinava como quem tem autoridade.

4o Domingo do Tempo Comum

Estando com seus discípulos em Cafarnaum, Jesus, num dia de sábado, entrou na sinagoga e começou a ensinar. Todos ficavam admirados com o seu ensinamento, pois ensinava como quem tem autoridade, não como os mestres da Lei. Estava então na sinagoga um homem possuído por um espírito mau. Ele gritou: 'Que queres de nós, Jesus Nazareno? Vieste para nos destruir? Eu sei quem tu és: tu és o Santo de Deus'. Jesus o intimou: 'Cala-te e sai dele!' Então o espírito mau sacudiu o homem com violência, deu um grande grito e saiu. E todos ficaram muito espantados e perguntavam uns aos outros: 'O que é isto? Um ensinamento novo dado com autoridade: Ele manda até nos espíritos maus, e eles obedecem!' E a fama de Jesus logo se espalhou por toda a parte, em toda a região da Galileia.

 

Comentário

A palavra Deuteronômio vem de Dêuteros = segundo, e Nomos = lei. É a segunda versão da legislação mosaica. O Deuteronômio foi elaborado a partir de pequenos fragmentos que foram compilados pelo autor ou autores ao longo de mais de seiscentos anos. O material que conhecemos teve uma origem muito diversa. Uma parte pertence à grande tradição oral que a confederação das tribos empregou para regular a aplicação da justiça dentro da comunidade e entre as tribos durante o tempo dos Juízes. Outra parte vem das tradições do reino do Norte, elaboradas por grupos que se opunham à monarquia e propunham legislação alternativa para tentar mudar o governo despótico instalado na Samaria. Outra parte é a elaboração das tradições orais do reino do Sul vigentes na época do rei Josias. Esta diversidade foi reelaborada após o exílio pelos sacerdotes e sábios, até chegar à forma que conhecemos hoje.

O documento teve várias edições nas quais foi sucessivamente ampliado. Insiste na necessidade de viver relações inter-humanas justas. A lei não é, neste documento, um amontoado de decretos isolados. Cada preceito tem a função de defender a vida e a dignidade de cada pessoa na comunidade. A lei expressa a vida íntima da comunidade, a necessidade de cada pessoa ter o mínimo para sobreviver e ninguém viva numa situação vergonhosa e miserável. Desta forma, a lei deixa de ser uma obrigação nefasta e passa a ser um "dom" concedido por Deus a todo o povo. Este dom ou aliança se fundamenta no direito de cada família possuir o mínimo necessário, isto é, um pedaço de terra onde possa cultivar e onde possa viver sem ser um fardo para os outros: “Como Javé fez doação deste país para o povo, ninguém pode se apropriar da terra” (Dt 15, 4).

Para este autor, a aliança, a lei ou "dom" deve ser interiorizado. A convivência no país que Deus deu ao Povo peregrino exige uma mudança de mentalidade que se traduza numa organização social onde o direito divino prevalece sobre todas as instituições. O cerne deste direito é a justiça inter-humana, entendida como o fundamento da convivência social. “O rei deve ser um irmão e cortar vantagens e interesses pessoais. Esta abertura generosa aos outros é o que demonstra a pertença a Javé e o que permite a pertença a este povo”.

Nesta mesma linha está localizada a promessa sobre o profeta vindouro. Esse profeta é comparado a Moisés. Não vem para lembrar ao povo uma coisa ou outra. Trata-se de indicar o rumo que o povo deve seguir. O profeta se preocupará em manter vivo o Espírito da Lei, tema no qual o Deuteronômio insiste, para que não se transforme em mera formalidade, mas expresse as necessidades vitais da comunidade e de cada ser humano.

O Deuteronômio dá início a uma tendência que Jesus levará adiante. Para Jesus, e em geral para todos os profetas, o aspecto fundamental da lei é preservar a dignidade, a intimidade e o valor de cada ser humano, o direito de viver em comunidade onde sejam valorizados pelo que são e não pelo que têm. Desse modo, a legislação deixa de ser um preceito que rege algo em particular, para se tornar expressão das necessidades vitais do ser humano. Isso é o que a Bíblia chama de "levar a Lei no coração".

Essa nova maneira de ver a lei é o que Paulo aplica em sua carta aos coríntios. Aconselha, sugere, opina, exorta e adverte tendo em conta a situação da comunidade, no quadro social, e a situação da pessoa, no seio da comunidade. Não impõe critérios rígidos que oprimem a consciência das pessoas, mas busca que cada pessoa se sinta confortável com sua situação.

A comunidade, preocupada com as opiniões adversas ao casamento, pergunta ao apóstolo Paulo: seria preferível não se casar? Para Paulo, o importante é que cada pessoa na comunidade cristã se sinta confortável e motivada para servir. É por isso que sua mensagem não orienta os casados, mas se preocupa com judeus e escravos. Judeus para que não neguem sua cultura e tradições, mas para que não as imponham aos outros. Ele encoraja os escravos a não se desencorajarem por sua condição e a buscarem uma oportunidade de se libertar. Desta forma, ninguém pode se sentir inferior ou superior aos outros. Todos são iguais porque dentro da comunidade a diferença é respeitada. Este é o princípio da igualdade.

Em todos os casos, situações, estados matrimoniais, posições sociais ... Paulo insiste na urgência de encontrar uma forma de viver a liberdade que Cristo nos deixou e, sendo livres, preparar a irrupção do Reino. O Senhor volta quando a comunidade, livre de obstáculos sociais, culturais ou ideológicos, dá testemunho de uma vida alternativa e libertadora.

Essa capacidade de discernir cada situação particular foi uma das coisas que a multidão mais admirou em Jesus. Enquanto outros mestres e líderes respondiam com explicações exaustivas e citando códigos, preceitos e doutrinas, Jesus respondia com uma verdade clara e simples.

Jesus interessou-se pela situação particular de cada ser humano: nos seus sofrimentos, nas ideias que o atormentavam, nas coisas que o impediam de ser livre e espontâneo. Este interesse não se devia a um interesse político dissimulado, mas a uma apreciação genuína de cada pessoa que encontrava ao longo do caminho. Muitos movimentos e grupos mostram interesse pelos indivíduos enquanto servem aos seus interesses de proselitismo, enquanto são seus adeptos, então, se discordam, os ignora ou os marginaliza. Jesus manifestou-se abertamente contra esta forma de agir e declarou-a abertamente: o sábado, ou seja, a lei, os costumes, tudo o que é prescrito, está a serviço de cada ser humano e não o contrário.

Precisamente, sua luta contra os demônios era uma luta contra as ideologias instaladas nas sinagogas, que buscavam um messias glorioso, um militar implacável, um reformador religioso. Jesus nunca se identificou com estes propósitos. Por isso, exorta "os espíritos impuros" ou as ideologias opressoras a calar-se e a não tentar seduzi-lo com falsas aclamações e reconhecimentos.

O povo simples reconhecia esta luta contra o formalismo da lei e a ideologia que a sustentava. A proposta de Jesus os libertava do pesado fardo moral, econômico e cultural que deveria cumprir os mais de seis mil preceitos em vigor para regular todos os aspectos da vida pessoal e comunitária. Muita gente se perguntava: não poderia este homem ser o novo legislador? Não será o homem prometido que vai substituir o profeta Moisés? Não será a proposta de Jesus, o Reino de Deus, a "nova Lei?" Por que suas ações libertadoras e sua luta contra o mal são tão eficazes?

Hoje devemos nos perguntar: seguimos a proposta de Jesus de que cada ser humano tem um valor inalienável? Acreditamos que nossa tarefa, como anunciadores da boa notícia, é ajudar todos os seres humanos a se libertarem dos obstáculos que não lhes permitem crescer com liberdade e espontaneidade? A Boa Nova de Jesus tem caráter normativo ou a consideramos de forma superficial como as notícias de cada dia?

Oração

Ó Deus, que suscitastes líderes e profetas que falaram em vosso nome e guiaram o vosso povo em todos os momentos de sua história, e que na plenitude dos tempos enviastes vosso filho para que fosse mestre, caminho, verdade e vida. Suscitai do nosso meio novos profetas para que saibamos iluminar com a cossa palavra os desafios que a história nos coloca e sejamos verdadeiras testemunhas do vosso projeto. Por Jesus Cristo nosso Senhor. Amém.

Santo do Dia
S. João Bosco
1815-1888 ? fundador ? patrono dos editores, dos jovens e
aprendizes ? \"João? significa \"Deus é misericordioso?

João Bosco foi o fundador dos padres e irmãs salesianos, dedicados à formação da juventude. Aos 9 anos, teve um sonho que foi a razão da sua total dedicação em favor dos jovens, sobretudo os mais excluídos da sociedade. Achava-se ele num campo com uma multidão de crianças desaforentas e inconvenientes, e procurava com fúria contê-las à força. Então um homem com o rosto iluminado e longo manto o deteve, dizendo que conquistasse as crianças não pela força mas pelo afeto e amizade. Aquele foi e continua o campo de trabalho de João Bosco e de seus filhos, a família salesiana. É invocado com esta oração:
Necessitado eu de particular auxílio, a vós recorro com grande confiança, ó S. João Bosco. Preciso de graças espirituais e também temporais e especialmente... (pedir a graça). Vós que fostes tão devoto de Jesus sacramentado e de Maria Auxiliadora e vos compadecestes tanto das desventuras humanas, obtende-me de Jesus e de sua celeste mãe a graça que vos peço e também uma grande obediência à vontade de Deus. Amém.


Outros santos do dia: Atanásio de Modon (bispo), Eusébio de São Galo (monge) e Francisco Xavier Bianchi (barnabita).