Consulta diaria

Primeira leitura: Is 50,4-7: 
Não desviei meu rosto das bofetadas e cusparadas; sei que não serei humilhado.
Salmo: Sl 21,8-9.17-18a.19-20.23-24 (R.2a): 
Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?
Segunda leitura: Fl 2,6-11: 
Humilhou-se a si mesmo; por isso, Deus o exaltou acima de tudo.
Evangelio: Mc 14,1-15,47: 
Procuravam um meio de prender Jesus à traição, para matá-lo.

 

Faltavam dois dias para a Páscoa e para a festa dos Ázimos. Os sumos sacerdotes e os mestres da Lei procuravam um meio de prender Jesus à traição, para matá-lo. Eles diziam: 'Não durante a festa, para que não haja um tumulto no meio do povo.' Derramou perfume em meu corpo, preparando-o para a sepultura. Jesus estava em Betânia, na casa de Simão, o leproso. Quando estava à mesa, veio uma mulher com um vaso de alabastro cheio de perfume de nardo puro, muito caro. Ela quebrou o vaso e derramou o perfume na cabeça de Jesus. Alguns que estavam ali ficaram indignados e comentavam: 'Por que este desperdício de perfume? Ele poderia ser vendido por mais de trezentas moedas de prata, que seriam dadas aos pobres.' E criticavam fortemente a mulher. Mas Jesus lhes disse: 'Deixai-a em paz! Por que aborrecê-la? Ela praticou uma boa ação para comigo. Pobres sempre tereis convosco e quando quiserdes podeis fazer-lhes o bem. Quanto a mim não me tereis para sempre. Ela fez o que podia: derramou perfume em meu corpo, preparando-o para a sepultura. Em verdade vos digo, em qualquer parte que o Evangelho for pregado, em todo o mundo, será contado o que ela fez, como lembrança do seu gesto.' Prometeram a Judas Iscariotes dar-lhe dinheiro. Judas Iscariotes, um dos doze, foi ter com os sumos sacerdotes para entregar-lhes Jesus. Eles ficaram muito contentes quando ouviram isso, e prometeram dar-lhe dinheiro. Então, Judas começou a procurar uma boa oportunidade para entregar Jesus. Onde está a sala em que vou comer a Páscoa com os meus discípulos? No primeiro dia dos ázimos, quando se imolava o cordeiro pascal, os discípulos disseram a Jesus: 'Onde queres que façamos os preparativos para comeres a Páscoa?' Jesus enviou então dois dos seus discípulos e lhes disse: 'Ide à cidade. Um homem carregando um jarro de água virá ao vosso encontro. Segui-o e dizei ao dono da casa em que ele entrar: 'O Mestre manda dizer: onde está a sala em que vou comer a Páscoa com os meus discípulos?' Então ele vos mostrará, no andar de cima, uma grande sala, arrumada com almofadas. Ali fareis os preparativos para nós!' Os discípulos saíram e foram à cidade. Encontraram tudo como Jesus havia dito, e prepararam a Páscoa. Um de vós, que come comigo, vai me trair.' Ao cair da tarde, Jesus foi com os doze. Enquanto estavam à mesa comendo, Jesus disse: 'Em verdade vos digo, um de vós, que come comigo, vai me trair.' Os discípulos começaram a ficar tristes e perguntaram a Jesus, um após outro: 'Acaso serei eu?' Jesus lhes disse: 'É um dos doze, que se serve comigo do mesmo prato. O Filho do Homem segue seu caminho, conforme está escrito sobre ele. Ai, porém, daquele que trair o Filho do Homem! Melhor seria que nunca tivesse nascido!' Isto é o meu corpo. Isto é o meu sangue, o sangue da aliança. Enquanto comiam, Jesus tomou o pão e, tendo pronunciado a bênção, partiu-o e entregou-lhes, dizendo: 'Tomai, isto é o meu corpo.' Em seguida, tomou o cálice, deu graças, entregou-lhes e todos beberam dele. Jesus lhes disse: 'Isto é o meu sangue, o sangue da aliança, que é derramado em favor de muitos. Em verdade vos digo, não beberei mais do fruto da videira, até o dia em que beberei o vinho novo no Reino de Deus.' Antes que o galo cante duas vezes, três vezes tu me negarás. Depois de terem cantado o hino, foram para o monte das Oliveiras. Então Jesus disse aos discípulos: 'Todos vós ficareis desorientados, pois está escrito: 'Ferirei o pastor e as ovelhas se dispersarão.' Mas, depois de ressuscitar, eu vos precederei na Galiléia.' Pedro, porém, lhe disse: 'Mesmo que todos fiquem desorientados, eu não ficarei.' Respondeu-lhe Jesus: 'Em verdade te digo, ainda hoje, esta noite, antes que o galo cante duas vezes, três vezes tu me negarás.' Mas Pedro repetiu com veemência: 'Ainda que tenha de morrer contigo, eu não te negarei.' E todos diziam o mesmo. Começou a sentir pavor e angústia. Chegados a um lugar chamado Getsêmani, disse Jesus aos discípulos: 'Sentai-vos aqui, enquanto eu vou rezar!' Levou consigo Pedro, Tiago e João, e começou a sentir pavor e angústia. Então Jesus lhes disse: 'Minha alma está triste até a morte. Ficai aqui e vigiai.' Jesus foi um pouco mais adiante e, prostrando-se por terra, rezava que, se fosse possível, aquela hora se afastasse dele. Dizia: 'Abbá! Pai! Tudo te é possível: Afasta de mim este cálice! Contudo, nóo seja feito o que eu quero, mas sim o que tu queres!' Voltando, encontrou os discípulos dormindo. Então disse a Pedro: 'Simão, tu estás dormindo? Não pudeste vigiar nem uma hora? Vigiai e orai, para não cairdes em tentação! Pois o espírito está pronto, mas a carne é fraca.' Jesus afastou-se de novo e rezou, repetindo as mesmas palavras. Voltou outra vez e os encontrou dormindo, porque seus olhos estavam pesados de sono e eles não sabiam o que responder. Ao voltar pela terceira vez, Jesus lhes disse: 'Agora podeis dormir e descansar. Basta! Chegou a hora! Eis que o Filho do Homem é entregue nas mãos dos pecadores. Levantai-vos! Vamos! Aquele que vai me trair já está chegando.' Prendei-o e levai-o com segurança!'E logo, enquanto Jesus ainda falava, chegou Judas, um dos doze, com uma multidão armada de espadas e paus. Vinham da parte dos sumos sacerdotes, dos mestres da Lei e dos anciãos do povo. O traidor tinha combinado com eles um sinal, dizendo: 'É aquele a quem eu beijar. Prendei-o e levai-o com segurança!' Judas logo se aproximou de Jesus, dizendo: 'Mestre!', e o beijou. Então lançaram as mãos sobre ele e o prenderam. Mas um dos presentes puxou a espada e feriu o empregado do sumo sacerdote, cortando-lhe a orelha. Jesus tomou a palavra e disse: 'Vós saístes com espadas e paus para me prender, como se eu fosse um assaltante. Todos os dias eu estava convosco, no Templo, ensinando, e não me prendestes. Mas isto acontece para que se cumpram as Escrituras.' Então todos o abandonaram e fugiram. Um jovem, vestido apenas com um lençol, estava seguindo a Jesus, e eles o prenderam. Mas o jovem largou o lençol e fugiu nu. Tu és o Messias, o Filho de Deus Bendito? Então levaram Jesus ao Sumo Sacerdote, e todos os sumos sacerdotes, os anciãos e os mestres da Lei se reuniram. Pedro seguiu Jesus de longe, até o interior do pátio do Sumo Sacerdote. Sentado com os guardas, aquecia-se junto ao fogo. Ora, os sumos sacerdotes e todo o Sinédrio procuravam um testemunho contra Jesus, para condená-lo à morte, mas não encontravam. Muitos testemunhavam falsamente contra ele, mas seus testemunhos não concordavam. Alguns se levantaram e testemunharam falsamente contra ele, dizendo: 'Nós o ouvimos dizer: 'Vou destruir este templo feito pelas mãos dos homens, e em três dias construirei um outro, que não será feito por mãos humanas!' Mas nem assim o testemunho deles concordava. Então, o Sumo Sacerdote levantou-se no meio deles e interrogou a Jesus: 'Nada tens a responder ao que estes testemunham contra ti?' Jesus continuou calado, e nada respondeu. O Sumo Sacerdote interrogou-o de novo: 'Tu és o Messias, o Filho de Deus Bendito?' Jesus respondeu: 'Eu sou. E vereis o Filho do Homem sentado à direita do Todo-Poderoso, vindo com as nuvens do céu.' O Sumo Sacerdote rasgou suas vestes e disse: 'Que necessidade temos ainda de testemunhas? Vós ouvistes a blasfêmia! O que vos parece?' Então todos o julgaram réu de morte. Alguns começaram a cuspir em Jesus. Cobrindo-lhe o rosto, o esbofeteavam e diziam: 'Profetiza!' Os guardas também davam-lhe bofetadas. Nem conheço esse homem de quem estais falando. Pedro estava em baixo, no pátio. Veio uma criada do Sumo Sacerdote, e, quando viu Pedro que se aquecia, olhou bem para ele e disse: 'Tu também estavas com Jesus, o Nazareno!' Mas Pedro negou, dizendo: 'Não sei e nem compreendo o que estás dizendo!' E foi para fora, para a entrada do pátio. E o galo cantou. A criada viu Pedro, e de novo começou a dizer aos que estavam perto: 'Este é um deles.' Mas Pedro negou outra vez. Pouco depois, os que estavam junto diziam novamente a Pedro: 'É claro que tu és um deles, pois és da Galiléia.' Aí Pedro começou a maldizer e a jurar, dizendo: 'Nem conheço esse homem de quem estais falando.' E nesse instante um galo cantou pela segunda vez. Lembrou-se Pedro da palavra que Jesus lhe havia dito: 'Antes que um galo cante duas vezes, três vezes tu me negarás.' Caindo em si, ele começou a chorar. Vós quereis que eu solte o rei dos judeus? Logo pela manhã, os sumos sacerdotes, com os anciãos, os mestres da Lei e todo o Sinédrio, reuniram-se e tomaram uma decisão. Levaram Jesus amarrado e o entregaram a Pilatos. E Pilatos o interrogou: 'Tu és o rei dos judeus?' Jesus respondeu: 'Tu o dizes.' E os sumos sacerdotes faziam muitas acusações contra Jesus. Pilatos o interrogou novamente: 'Nada tens a responder? Vê de quanta coisa te acusam!' Mas Jesus não respondeu mais nada, de modo que Pilatos ficou admirado. Por ocasião da Páscoa, Pilatos soltava o prisioneiro que eles pedissem. Havia então um preso, chamado Barrabás, entre os bandidos, que, numa revolta, tinha cometido um assassinato. A multidão subiu a Pilatos e começou a pedir que ele fizesse como era costume. Pilatos perguntou: 'Vós quereis que eu solte o rei dos judeus?' Ele bem sabia que os sumos sacerdotes haviam entregado Jesus por inveja. Porém, os sumos sacerdotes instigaram a multidão para que Pilatos lhes soltasse Barrabás. Pilatos perguntou de novo: 'Que quereis então que eu faça com o rei dos Judeus?' Mas eles tornaram a gritar: 'Crucifica-o!' Pilatos perguntou: 'Mas, que mal ele fez?' Eles, porém, gritaram com mais força: 'Crucifica-o!' Pilatos, querendo satisfazer a multidão, soltou Barrabás, mandou flagelar Jesus e o entregou para ser crucificado. Teceram uma coroa de espinhos e a puseram em sua cabeça. Então os soldados o levaram para dentro do palácio, isto é, o pretório, e convocaram toda a tropa. Vestiram Jesus com um manto vermelho, teceram uma coroa de espinhos e a puseram em sua cabeça. E começaram a saudá-lo: 'Salve, rei dos judeus!' Batiam-lhe na cabeça com uma vara. Cuspiam nele e, dobrando os joelhos, prostravam-se diante dele. Depois de zombarem de Jesus, tiraram-lhe o manto vermelho, vestiram-no de novo com suas próprias roupas e o levaram para fora, a fim de crucificá-lo. Levaram Jesus para o lugar chamado Gólgota. Os soldados obrigaram um certo Simão de Cirene, pai de Alexandre e de Rufo, que voltava do campo, a carregar a cruz. Levaram Jesus para o lugar chamado Gólgota, que quer dizer 'Calvário'. Ele foi contado entre os malfeitores. Deram-lhe vinho misturado com mirra, mas ele não o tomou. Então o crucificaram e repartiram as suas roupas, tirando a sorte, para ver que parte caberia a cada um. Eram nove horas da manhã quando o crucificaram. E ali estava uma inscrição com o motivo de sua condenação: 'O Rei dos Judeus'. Com Jesus foram crucificados dois ladrões, um à direita e outro à esquerda. Porque eu vos digo: É preciso que se cumpra em mim a Palavra da Escritura: 'Ele foi contado entre os malfeitores.' A outros salvou, a si mesmo não pode salvar! Os que por ali passavam o insultavam, balançando a cabeça e dizendo: 'Ah! Tu que destróis o Templo e o reconstróis em três dias, salva-te a ti mesmo, descendo da cruz!' Do mesmo modo, os sumos sacerdotes, com os mestres da Lei, zombavam entre si, dizendo: 'A outros salvou, a si mesmo não pode salvar! O Messias, o rei de Israel... que desça agora da cruz, para que vejamos e acreditemos!' Os que foram crucificados com ele também o insultavam. Jesus deu um forte grito e expirou. Quando chegou o meio-dia, houve escuridão sobre toda a terra, até as três horas da tarde. Pelas três da tarde, Jesus gritou com voz forte: 'Eli, Eli, lamá sabactâni?', que quer dizer: 'Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?' Alguns dos que estavam ali perto, ouvindo-o, disseram: 'Vejam, ele está chamando Elias!' Alguém correu e embebeu uma esponja em vinagre, colocou-a na ponta de uma vara e lhe deu de beber, dizendo: 'Deixai! Vamos ver se Elias vem tirá-lo da cruz.' Então Jesus deu um forte grito e expirou. Aqui todos se ajoelham e faz-se uma pausa. Neste momento a cortina do santuário rasgou-se de alto a baixo, em duas partes. Quando o oficial do exército, que estava bem em frente dele, viu como Jesus havia expirado, disse: 'Na verdade, este homem era Filho de Deus!' Estavam ali também algumas mulheres, que olhavam de longe; entre elas, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago Menor e de Joset, e Salomé. Elas haviam acompanhado e servido a Jesus quando ele estava na Galileia. Também muitas outras que tinham ido com Jesus a Jerusalém, estavam ali. José rolou uma pedra à entrada do sepulcro. Era o dia da preparação, isto é, a véspera do sábado, e já caíra a tarde. Então, José de Arimateia, membro respeitável do Conselho, que também esperava o Reino de Deus, cheio de coragem, veio a Pilatos e pediu o corpo de Jesus. Pilatos ficou admirado, quando soube que Jesus estava morto. Chamou o oficial do exército e perguntou se Jesus tinha morrido há muito tempo. Informado pelo oficial, Pilatos entregou o corpo a José. José comprou um lençol de linho, desceu o corpo da cruz e o envolveu no lençol. Depois colocou-o num túmulo, escavado na rocha, e rolou uma pedra à entrada do sepulcro. Maria Madalena, e Maria, mãe de Joset, observavam onde Jesus foi colocado.'

Comentário

Mais um ano e pedimos desculpas àqueles que estão à procura de um comentário bíblico-teológico "normal" para o domingo de Ramos; esperamos que possam encontrá-lo facilmente na rede. Nós, desta vez, queremos tentar novamente fazer um comentário pensando naquelas pessoas que –como também nós frente ao comentário que já tínhamos redigido– se sentem mal frente a esse conjunto de conceitos bíblicos que se repetem e se ligam indefinidamente sem sair dessa espiral teológico-litúrgica dentro da qual muitos de nós –que pensamos como pessoas seculares, da rua, com as preocupações diárias da vida– sentimos que quase nos asfixiamos.

Com efeito, muitos dos comentários bíblicos que utilizamos parecem mover-se em "outro mundo", um mundo próprio de referências teológicas intrasistêmicas, que funcionam com uma lógica diferente da realidade, e que parecem estar de antemão imunizados contra toda crítica, porque, nesse ambiente bíblico-litúrgico ao qual estão destinados, nas homilias, tudo deve ser ouvido e recebido sem discussão, sem espírito crítico, "com muita fé". Nós que temos uma fé mais ou menos crítica, uma fé que não quer deixar de ser de pessoas de hoje e da rua, nos perguntamos: é possível celebrar a semana santa de outra maneira? Assim como buscamos "outra forma de crer", há "outra forma de celebrar e acolher a semana santa"?

Vejamos. Comecemos perguntando-nos: o que sentem, o que sentimos, muitas pessoas crentes de hoje, frente à semana santa?

Muitos fiéis adultos (trabalhadores, profissionais das mais variadas áreas, e também intelectuais, ou simples pessoas cultas) se sentem mal quando, na semana santa, pelo especial significado desses dias, ou por acompanhar a família –e com as lembranças de uma infância e juventude talvez religiosa–, entram numa igreja, captam o ambiente, e escutam a pregação. Sentem-se imediatamente submersos de novo naquele mundo de conceitos, símbolos, referências bíblicas... que elaboram uma mensagem sobre a base de uma crença central que fora do templo alguém nunca se encontra em nenhum outro domínio da vida: a "Redenção".

Estamos na Semana Santa, e o que celebramos –assim percebem no templo– é o grande mistério de todos los tempos, o mais importante que ocorreu desde que o mundo é mundo: a "Redenção"... O "homem" foi criado por Deus (só em segundo termo a mulher, segundo a Bíblia), mas esta, a mulher, convenceu o homem para que comessem juntos um fruto proibido por Deus. Aquilo foi o fracasso do plano de Deus, que veio abaixo, se interrompeu, e precisou ser substituído por um novo plano, o plano da Redenção, para redimir o ser humano que caiu na "desgraça de Deus" desde que cometeram aquele "pecado original", devido à infinita ofensa que este "pecado" infligiu a Deus.

Esse novo plano, de Redenção, exigiu a "vinda de Deus ao mundo", por meio da encarnação em Jesus, para assim "assumir nossa representação jurídica perante Deus e pagar por nós a Deus uma reparação adequada" por semelhante ofensa infinita. E é por isso que Jesus sofreu indizíveis tormentos em sua Paixão e Morte, para "reparar" aquela ofensa e redimir assim a humanidade, e conseguindo-lhe o perdão de Deus e resgatando-a do poder do demônio sob o qual permanecia cativa.

Esta é a interpretação, a teologia sobre a qual se constroem e giram a maior parte das interpretações em curso durante a semana santa. E este é o ambiente no qual muitos fiéis de hoje se sentem mal, bem mal. Sentem-se asfixiados. Vêem-se transportados para um mundo imaginário que nada tem a ver nem com o mundo real de cada dia, nem com o da ciência, o da informação, ou o do sentido mais profundo de sua vida. Por este mal-estar, outros muitos cristãos não somente fugiram da semana santa tradicional, como até se distanciaram da Igreja.

Há outra forma de entender a Semana Santa, que não nos obrigue a transitar pelo mundo desgastado dessa teologia na qual tantos já não cremos?

"Não cremos", foi o que dissemos? Antes de tudo deve-se dizer –para alívio de muitos– que efetivamente, pode-se não crer em tal teologia. Não se trata de nenhum "dogma de fé" (e se fosse, tampouco isso a tornaria digna de crédito). Trata-se de uma genial construção interpretativa do mistério de Cristo, devida à intuição medieval de santo Anselmo de Cantuária, que desde sua visão do direito romano, construiu, "imaginou" uma forma de explicar a si mesmo o segredo percebido na morte de Jesus. Estava condicionado por muitas crenças próprias da Idade Média, e fez o que pode, e o fez admiravelmente: elaborou uma fantástica interpretação que cativou tanto as mentes de seus coetâneos, que perdurou até o século XXI. Deveríamos, sem dúvida, felicitar a santo Anselmo.

O Concílio Vaticano II é o primeiro momento eclesial que supõe um certo abandono da hipótese da Redenção, ou, para dizer de outra forma, de uma interpretação da significação de Jesus muito além da Redenção. É claro que nos documentos conciliares aparece a materialidade do conceito, numerosas vezes incluído, mas a estrutura do pensamento e da espiritualidade conciliar vão muito além dele. O significado de Jesus para a Igreja pós-conciliar –não digamos para a Igreja com espiritualidade da libertação– deixa de passar pela redenção, pelo pecado original, pelos terríveis sofrimentos expiatórios de Jesus e pela genial "substituição penal satisfatória" idealizada por Anselmo de Cantuária... Desaparecem estas referências, e quando para surpresa se ouvem, soam estranhas, incompreensíveis, ou até suscitam rechaço. É o caso do filme de Mel Gibson, que foi rejeitado por tantos espectadores cristãos, não por outra coisa, mas pela imagem do "Deus cruel e vingativo" que se dava por suposta, imagem que, evidentemente, hoje não somente não merece crédito, mas que convida veementemente ao rechaço.

Como celebrar a semana santa quando se é um cristão que já não comunga com essas crenças? Alguém se sente profundamente cristão, admirador de Jesus, seu discípulo, seguidor de sua Causa, lutador por sua mesma Utopia... mas se sente mal nesse outro ambiente asfixiante das representações da paixão ao novo e velho estilo de Mel Gibson, das Vias-sacras, das procissões da semana santa, das meditações das sete palavras, das horas santas que retoman repetitivamente as mesmas categorias teológicas de santo Anselmo do século XI... sendo que estamos no século XXI...

Escondidas na semana santa que oficialmente celebramos, não deixam de estar, lá bem distante, bem dentro de suas raízes ancestrais, as festas que os indígenas originários faziam com suas celebrações baseadas no equinócio astronômico. Trata-se de uma festa que evoluiu diferentemente em cada cultura, e muito criativamente ao ser herdada de um povo a outro, e ao contagiar-se de uma religião a outra. Uma festa que foi herdada e recriada também pelos israelitas nômades como festa do cordeiro pascal, e depois transformada pelos israelitas sedentários como festa dos pães ázimos, em recordação e como reatualização da Páscoa, pedra angular da identidade israelita... Festa que os cristãos logo cristianizaram como a festa da Ressurreição de Cristo, e que só mais tarde, com a passagem dos séculos, na obscura Idade Média, ficou ofuscada sob a interpretação jurídica da redenção...

Por que permanecer, então, presos a uma interpretação medieval, cativos de uma teologia e uma interpretação que não é nossa, que já não nos diz nada, e que poderíamos abandonar uma vez que já cumpriu o seu papel? Por que não sentir-se parte desta procissão tão humana e tão festiva de interpretações e hermenêuticas, de mitos e "grandes relatos" incessantemente renovados e recriados, e contribuir nós também para esta empreitada histórica, dando o que nos corresponde hoje, com criatividade, responsabilidade e liberdade? Não podemos deixar de pensar que "Outra semana santa é possível"... e urgente! E pelo menos também legítima.

Não vamos desenvolver aqui uma nova interpretação destas festas. Basta por enquanto cumprir com uma pretensão dupla: aliviar os que se sentiam culpados por desejar que "outra semana santa fosse possível", por uma parte, e, por outra, convidar todos para a criatividade, livre, consciente, responsável e gozosa. Não em todas as partes ou em qualquer contexto será possível, porém, em muitas comunidades concretas será possível. Se não for possível na minha, poderia ser em alguma outra comunidade mais livre e criativa que talvez não esteja muito distante da minha... por que não perguntar, por que não buscá-la?

Oração
Deus, nosso Pai, vós enviastes o vosso Filho ao nosso meio para que descubramos todo o amor que tendes por nós. E quando respondemos a esse amor com nosso rechaço, matando o vosso filho, Vós não nos abandonastes, mas seguistes adiante com vosso plano de ser nosso melhor amigo. Abrandai nossos corações para que saibamos responder ao vosso amor com o nosso. Por Cristo nosso Senhor. Amém.

Santo do Dia
Anunciação do Senhor ? Nossa Senhora da Encarnação

 

Para S. Atanásio (328), a festa da Anunciação era uma das maiores festas do Senhor e a primeira na ordem dos mistérios. Nessa solenidade, celebramos a encarnação do Verbo, isto é, a entrada do Filho de Deus neste mundo, assumindo nossa condição humana. Maria diz sim a Deus e torna-se a Mãe de Deus e corredentora do gênero humano (Lc 1,28ss). Bastante difundido em Portugal, o culto chegou ao Brasil nos tempos coloniais. É a padroeira dos carpinteiros e marceneiros.