Consulta diaria

Primeira leitura: Atos 6,1-7: 
Escolheram sete homens cheios do Espírito Santo
Salmo: 32
Seja-nos manifestada, Senhor, a vossa misericórdia, como a esperamos de Vós
Segunda leitura: 1 Pd 2,4-9: 
Vós sois uma raça escolhida, um sacerdócio régio, uma nação santa
Evangelio: Jo 14,1-12: 
Eu sou o caminho, a verdade e a vida

1 Não se perturbe o vosso coração. Credes em Deus, crede também em mim.
2 Na casa de meu Pai há muitas moradas. Não fora assim, e eu vos teria dito; pois vou preparar-vos um lugar.
3 Depois de ir e vos preparar um lugar, voltarei e tomar-vos-ei comigo, para que, onde eu estou, também vós estejais.
4 E vós conheceis o caminho para ir aonde vou. 5Disse-lhe Tomé: Senhor, não sabemos para onde vais. Como podemos conhecer o caminho?
6 Jesus lhe respondeu: Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim.
7 Se me conhecêsseis, também certamente conheceríeis meu Pai; desde agora já o conheceis, pois o tendes visto.
8 Disse-lhe Filipe: Senhor, mostra-nos o Pai e isso nos basta.
9 Respondeu Jesus: Há tanto tempo que estou convosco e não me conheceste, Filipe! Aquele que me viu, viu também o Pai. Como, pois, dizes: Mostra-nos o Pai...
10 Não credes que estou no Pai, e que o Pai está em mim? As palavras que vos digo não as digo de mim mesmo; mas o Pai, que permanece em mim, é que realiza as suas próprias obras.
11 Crede-me: estou no Pai, e o Pai em mim. Crede-o ao menos por causa destas obras.
12 Em verdade, em verdade vos digo: aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço, e fará ainda maiores do que estas, porque vou para junto do Pai.

Comentário

Na primeira comunidade cristã, descrita por Lucas na primeira leitura, os apóstolos caem na conta de que não podem fazer tudo sozinhos; precisam valer-se de outros para atender às necessidades urgentes da comunidade, para não desatender o ministério da Palavra. Eles, porém, não nomeiam ninguém, não impõem sua vontade escolhendo eles mesmos. Antes, convidam a comunidade para escolher seus próprios servidores, seus animadores. Apresentam a eles sete pessoas que são "autorizadas" pelos apóstolos para atender a comunidade. Não são servidores de segunda. São pessoas encarregadas ou enviadas a realizar ministérios diferentes. Mas todos estavam empenhados na difusão da Palavra e no crescimento numérico e qualificado da comunidade.

Da mesma forma, o autor da carta de Pedro deseja destacar o papel de todos os membros da comunidade na construção do templo vivo de Deus. Jesus é a pedra viva, o fundamento, a base para construir a casa de Deus. Sobre essa pedra se colocam as demais pedras, os seguidores de Jesus; de tal forma, pois, que não somos apenas espectadores da construção. Somos artífices e ao mesmo tempo matéria fundamental para atingir a construção do grande edifício humano, levantado sobre a rocha, Jesus Cristo, sustentado pela coluna do Espírito Santo e estruturado com a ativa cooperação de cada um dos batizados. O sacerdócio, mais que uma honra, um privilégio, uma casta... é um dinamismo desatado pelo Espírito para o serviço da comunidade eclesial. Todos somos ministros, todos sacerdotes, todos servidores numa grande experiência fraterna a serviço do Reino de Deus.

O evangelho de João revela a situação crítica vivida pela comunidade nascente provocada pelo ambiente hostil e perigoso em que vai se desenvolvendo. Jesus não somente é a pedra fundamental, mas é também caminho, verdade e vida. Os discípulos estão confusos diante das palavras de Jesus. Nos versículos anteriores, Jesus anunciou a traição de Judas e a negação de Pedro. Este episódio reflete a situação de crise dos discípulos porque não entendem o caminho de Jesus. As palavras que Jesus pronuncia pretendem dar-lhes esperança, fortalecer-lhes nas angústias que enfrentam, devolver-lhes o horizonte de vida.

Jesus é caminho, ou seja, é projeto, horizonte que orienta a vida. Sua morte está cheia de sentido porque nela se manifesta o amor de Deus pela humanidade e lhes devolve a razão de viver em momentos de confusão e desespero.

Jesus é verdade: a mentira, o engano, a corrupção se apodera do coração das pessoas. A Palavra anunciada e testemunhada por Jesus, que é a Palavra do Pai, transforma-se em critério de verdade, em transparência que devolve a luz.

Jesus é vida: diante das forças da morte que causam terror, Ele dá sentido à vida, revela-se como Senhor da vida e vencedor da morte. E nele todos os que apostam em favor de um projeto de vida, de verdade e amor, encontram um horizonte que pode salvar a humanidade do caos, da injustiça, da corrupção, da exclusão e da maldade.

Quem crê em Jesus crê no Pai e será transparência do Ressuscitado. No fundo isso é ser cristão, uma forma de ser em plenitude filhos e filhas de Deus. Porém a proposta de Jesus não é um assunto meramente individual, intimista, espiritualista. O projeto de seu seguimento é exigente e radical. Também o cristão, integrado ao corpo comunitário, deve ser caminho, verdade e vida. Somos chamados a ser uma alternativa de vida, junto com outras alternativas de vida –representadas por outras pessoas e comunidades inspiradas por outras religiões– num mundo desorientado que com freqüência não encontra o sentido da existência. Somos servidores da Vida mesmo em meio à morte que semeia o egoísmo humano quando desatende a sabedoria que se manifesta "pelos muitos caminhos de Deus". A desatenção a esta sabedoria divina manifestada por tantos caminhos, repercute nas crescentes injustiças sociais e guerras que pretendem justificar-se com apelos à defesa da liberdade e da segurança, ou com a imposição da democracia ou da "liberdade de comércio"... e que no fundo escondem mesquinhos interesses econômicos e hegemônicos das potências mais fortes, e lançam na fome e na miséria os países pobres.

Nossa missão, pois, como cristãos, consiste em nos juntarmos a muitas outras pessoas e comunidades crentes, praticantes de outras religiões, como alternativa de vida, de resistência e esperança para todos.

Numa época como a nossa, marcada pela entrada em curso de um novo paradigma, o paradigma pluralista, devemos ler e proclamar com cuidado tanto a expressão de Pedro de uma "raça escolhida", como a expressão de João, colocada nos lábios de Jesus: "Eu sou 'o' Caminho"... Esta última, sobretudo, não deixa de ser uma expressão própria de uma linguagem confessional, uma linguagem de amor e de fé, cultual, e nesse contexto deve ser entendida. Não se pode perder de vista que, em outro sentido, mais amplo, é óbvio que são muitos os caminhos de Deus, "seus caminhos, que não são nossos caminhos", e que podem surpreender-nos sempre com o descobrimento de "novos caminhos" de Deus.

Oração

Ó Deus, mistério incompreensível, presença inacessível, amor inefável. Ajuda-nos a compreender que a Verdade está bem além de nossas formulações, que a Vida és Tu mesmo, e que os Caminhos que conduzem a Ti são infinitos. Nós concretamente te pedimos por Jesus, teu Filho e nosso irmão. Amém.

Santo do Dia

S. Matias Apóstolo
séc. I ? apóstolo ? \"Matias? quer dizer \"presente de Javé?
É o único apóstolo não escolhido pessoalmente por Jesus, mas sim pela comunidade primitiva cristã. Conforme Atos 1,15-26, após a ascensão, Matias foi escolhido para completar o grupo dos Doze, em substituição a Judas. Como afirma João Crisóstomo, sua escolha não obedeceu a ditames humanos, mas aos desígnios de Deus (At 1,21-22): E rezaram juntos, dizendo: Senhor, tu conheces o coração de todos. Mostra-nos (At 1,24). Tu, nós não. Com acerto o invocam como aquele que conhece os corações, pois a eleição deveria ser feita por ele e não por mais ninguém. Assim falavam com toda a confiança, porque a eleição era absolutamente necessária. Não disseram: \"Escolhe?, mas Mostra-nos quem escolheste (At 1,24). Bem sabiam que tudo está predestinado por Deus...? (Liturgia das horas. v. II. op. cit. p. 1.580).